Dados obtidos com exclusividade pelo Jornal de Jundiaí, via Lei de Acesso à Informação, mostram que jundiaienses sofreram 389 golpes entre janeiro e março deste ano, o que representa mais de quatro por dia somente no primeiro trimestre deste ano. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP). Na teoria, o crime registrado é de estelionato (art. 171), caracterizado pela enganação de uma pessoa ou grupo, por meio de fraude, artifício ou ardil, com o objetivo de obter vantagem ilícita.
O número de registros deste tipo de crime não é novidade. Ainda de acordo com os dados obtidos pelo JJ, em todo o ano de 2025, foram registrados 1.525 boletins de ocorrência do crime de estelionato em Jundiaí, o que representa também cerca de quatro casos por dia ao longo do ano. Em 2024, o número foi um pouco menor, o ano terminou com 1.353 registros. Durante a pandemia, quando os casos de golpes, sobretudo os virtuais, dispararam, foram registrados 1.942 casos em Jundiaí em 2020, entre janeiro e agosto daquele ano, média de quase oito por dia. Em comparação, em 2019, foram 1.201 no mesmo período, de janeiro a agosto.
Ainda que os números de boletins de ocorrência sejam altos, o crime de estelionato tem considerável subnotificação. Muitas pessoas não registram denúncia formal por vergonha de terem sido vítimas, por medo de exposição, por sofrerem golpes pequenos e resolverem “deixar para lá” ou até mesmo por acreditarem que não há como fazer o boletim de ocorrência por não ter qualquer informação sobre o(a) estelionatário(a).
De todo tipo e em todo lugar
Tanto no mundo físico quanto no virtual, as pessoas precisaram aprender a conviver o tempo todo com ameaças de golpes. E em um momento em que crimes como assassinato, latrocínio e roubo têm baixa recorde, uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que a situação mais temida hoje por brasileiros é ser vítima de um golpe e perder dinheiro pela internet ou celular. Em segundo lugar vem o temor de roubo a mão armada.
Uma outra pesquisa, conduzida pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), aponta a prevalência de golpes na prática. 88% dos paulistas já foram alvo de tentativas de golpes digitais. Em relação aos golpes consumados, o levantamento revela que 40% da população no Estado de São Paulo afirmou já ter feito compras em lojas virtuais que simplesmente não existiam, um dos golpes mais comuns da atualidade. Além disso, 24% disse ter sido vítima de fraude ou clonagem de cartão bancário no último ano.
Rastrear golpes, principalmente os virtuais e pequenos, é um desafio. Alguns golpes acabam ganhando notoriedade por conta da dimensão, o que exige atuação mais contundente. De acordo com a Polícia Federal, houve sete operações contra crimes cibernéticos, como os de alta tecnologia e fraudes bancárias, neste ano. No ano passado, foram 84, 75 em 2024 e 59 em 2023, o que indica tendência de aumento ao longo dos anos.
Recentemente passou a valer no Brasil a Lei nº 15.397. O texto prevê alteração nas penas dos crimes de estelionato e fraude eletrônica e digital. Neste último caso, a pena de reclusão é de quatro a dez anos, e multa, se houver furto cometido por meio de dispositivo eletrônico ou informático, conectado ou não à rede de computadores, com ou sem a violação de mecanismo de segurança ou a utilização de programa malicioso. Já no caso de estelionato, a pena passa a ser de um a cinco anos de reclusão e multa, além de abranger casos em que é usada “conta laranja”.
Tem jeito?
Não há uma fórmula para se proteger de golpes, mas algumas medidas de prevenção podem ajudar a população. Neste ano, o Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br), grupo dedicado a pensar a segurança dentro do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.Br) lançou uma versão atualizada de sua cartilha sobre segurança, com dois volumes dedicados à educação contra golpes e contra fraudes on-line. A cartilha pode ser acessada neste link; https://cartilha.cert.br/fasciculos/.
Outras dicas preconizadas envolvem:
- Não baixar aplicativos desconhecidos, no celular ou computador
- Não fazer transferências em sites duvidosos e verificar a procedência de boletos e documentos para pagamento
- Não passar informações pessoais para desconhecidos
- Se receber uma mensagem de WhatsApp, verificar com o remetente se ele realmente a enviou
- Desconfiar de tudo que envolva vantagens e dinheiro fácil
- Ter calma, analisar a situação e não fazer nada sem antes apurar
- Em caso de golpe, tentar obter informações, telefone, guardar o comprovante de depósito e procurar a polícia