BARBACENA

Hospital símbolo do 'Holocausto Brasileiro' é fechado para sempre

Por Artur Búrigo | da Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução/UFJF
A unidade virou símbolo do chamado 'Holocausto Brasileiro' e da violência manicomial no país.
A unidade virou símbolo do chamado 'Holocausto Brasileiro' e da violência manicomial no país.

Inaugurado em 1903, o antigo Hospital Colônia de Barbacena, na zona da mata mineira, foi fechado de forma definitiva nesta segunda-feira (25) pelo governo estadual.

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A unidade virou símbolo do chamado "Holocausto Brasileiro" e da violência manicomial no país pelos registros de superlotação, abandono e violações de direitos humanos durante o século 20.

De acordo com dados do governo de Minas, cerca de 40 mil pessoas passaram pela instituição entre 1942 e 2020, das quais aproximadamente 24 mil morreram.

A maioria dos pacientes enviados para lá não possuía nenhum diagnóstico de transtorno mental. Entre eles estavam gays, mulheres que perderam a virgindade antes do casamento, mendigos, epiléticos e presos políticos -todos rejeitados pela sociedade à época.

Hoje com o nome de Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), a unidade passava por um processo chamado de "desinstitucionalização" dos pacientes de longa permanência, que foram transferidos residências terapêuticas.

Desde 2019, segundo a gestão estadual, 68 moradores receberam alta para continuidade do tratamento em unidades especializadas.

Os últimos 14 pacientes do CHPB foram transferidos na última semana a uma unidade de Barbacena construída para recebê-los e que será gerida pela prefeitura municipal.

"Durante todos esses anos, eles foram muito bem atendidos, mas o que mais lhes faltava era a liberdade, porque estavam dentro de um hospital. É isso que a gente concretiza hoje", afirma o gerente de internação do complexo hospitalar, Márcio Antônio Resende.

Esses últimos pacientes, todos idosos, demandavam estrutura diferente das outras residências terapêuticas. Segundo o gerente de internação, eles possuem comorbidades clínicas, de mobilidade e necessitam suporte alimentar diferenciado.

Os moradores viveram, em média, 49 anos internados. A idade média atual é de 73 anos, e três deles chegaram à instituição antes de completar 15 anos.

O psicólogo da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) Elizeu de Assis afirma que a desinstitucionalização vem acontecendo desde 1979, na esteira da luta antimanicomial, e que a unidade de Barbacena se tornou um exemplo da reforma psiquiátrica.

Ele é autor de uma tese de doutorado em história na Ufop sobre o antigo Hospital Colônia e diz que, no início deste século, havia cerca de 150 pacientes cujas famílias não foram encontradas e foram sendo encaminhados a residências terapêuticas ao longo do tempo.

O pesquisador analisou os livros de internação entre 1903 e 1979 e contabilizou 91.911 pacientes e 18.802 óbitos no período. A tese de doutorado deu origem ao livro "Exilados na Pátria" (2020, Abrapsi).

A história de Barbacena ganhou repercussão nacional a partir de registros jornalísticos e fotográficos que revelaram o que acontecia entre os muros da instituição. Parte dessa memória está preservada no Museu da Loucura, que fica onde funcionava o antigo hospício.

O livro "Holocausto Brasileiro", de Daniela Arbex e "Nos Porões da Loucura", de Hiram Firmino, registraram os abusos cometidos no local e serviram como base para a série "Colônia", de André Ristum, produzida pelo Canal Brasil e disponível no Globoplay.

Elizeu de Assis, da Ufop, condena os tratamentos feitos à época, mas rejeita o termo "holocausto" por considerar que ele descontextualiza a unidade, responsável por receber no século passado os pacientes crônicos, destinados principalmente de Belo Horizonte.

"[Os tratamentos] eram coisas horríveis mesmo, mas era o modelo que se tinha na época, como eletrochoque. Você não tinha os neurolépticos [antipsicóticos] nem uma série de condições que hoje nós temos", diz o pesquisador.

Ele também diz não ter encontrado em registros do hospital ou em entrevistas com pacientes episódios de tortura com eletrochoque.

O pesquisador também faz ressalvas sobre as críticas aos trabalhadores da unidade, que operava frequentemente sob superlotação. Ele cita episódios em que 40 pacientes eram transferidos por dia do hospital Raul Soares, na capital, para Barbacena. Em algumas vezes, eles eram levados por viaturas policiais e deixados na instituição, sem diagnóstico.

"E os pacientes se acumulavam lá, não era problema somente do hospital ou que os trabalhadores de lá não queriam cuidar das pessoas", diz o psicólogo.

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