FORA DO TEMPO LIMITE

Jovem com lesão medular há 3 meses reage à polilaminina

Por Jairo Marques | da Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução/Neelam Hospital/Imagem ilustrativa
Há seis dias, Luiz recebeu a aplicação da substância, por ordem judicial.
Há seis dias, Luiz recebeu a aplicação da substância, por ordem judicial.

O jovem Luiz Otávio Santos Nunez, 19, que sofreu um acidente com arma de fogo em outubro de 2025 e ficou tetraplégico, abriu um novo capítulo a respeito do potencial da polilaminina, substância que agiria na regeneração de lesões medulares, ainda em fase de testes clínicos de segurança na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Leia mais: Paciente que recebeu polilaminina se emociona ao mexer pé e perna

Ele teve uma lesão considerada muito debilitante pelos médicos, com perda de movimentos em braços e pernas e perda de sensibilidade do umbigo para baixo. Há seis dias, Luiz recebeu a aplicação da substância, por ordem judicial, em um hospital militar de Campo Grande, já passados 110 dias de seu acidente, o que fugiu ao padrão adotado nos procedimentos compassivos até aqui.

Luiz relata uma série de manifestações positivas em seu corpo após a realização do procedimento.

O grupo de pesquisa da substância, liderado pela professora doutora Tatiana Sampaio, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), havia determinado que o campo de atuação do estudo seria em lesões medulares completas -com rompimento total da atividade da medula- e dentro de uma janela terapêutica de 72 horas.

Em acordo com o laboratório Cristália, porém, tendo em vista os resultados em aplicações dadas até agora, todas com ordem judicial, os pesquisadores resolveram estender o atendimento para casos subagudos -até três meses após o trauma. Não se pretende fazer a aplicação em pessoas com lesões ocorridas além desse prazo.

"Sinto que estou fazendo força com os músculos da minha perna. É um leve movimento, mas ele não existia. Também passei a ter uma sensação de calor nas pernas. Senti o toque da mão da minha mãe no meu pé. Não tenho nenhuma dúvida, foi tudo depois da polilaminina, antes isso não existia", diz Luiz, que é militar do Exército.

Na lesão de Luiz, nas vértebras C6 e C7, é esperado movimentos parciais dos braços, sem um prazo específico para que isso aconteça. Especialistas afirmam que ainda é preciso esperar os resultados da pesquisa clínica para atestar a eficácia da substância.

Viviane Goreti Ponciano dos Santos, mãe do jovem, afirma que sabe da responsabilidade da divulgação do quadro do filho. "Somos realistas. Sabemos da gravidade da lesão dele [do filho, Luiz]. Tenho total consciência da expectativa que podemos gerar nas pessoas. Mas eu afirmo que tudo está acontecendo. Sentimos claramente uma melhora, graças a Deus e a doutora Tatiana."

Luiz já começou um programa intensivo de fisioterapia, tido como fundamental para o avanço dos resultados da medicação, que ainda não pode ser comercializada.

"Entramos na Justiça porque era uma situação grave, com poucas alternativas reais, e havia uma possibilidade de benefício mesmo fora do prazo ideal. Não fazer nada também tem risco: é manter o paciente exatamente no mesmo cenário, sem perspectiva", afirmou o advogado da família, Gabriel Traven Nascimento

Para Traven, a questão não foi "arriscar por arriscar". "É ter coragem técnica para atuar onde quase ninguém atua, mas com método, responsabilidade e estratégia, para viabilizar uma chance ao paciente quando o caminho tradicional simplesmente não oferece resposta".

Para os testes da pesquisa clínica, na Anvisa, o recorte dos voluntários não muda. Serão cinco pessoas com lesões medulares completas e agudas, ocorridas em até 72 horas. Os pacientes deverão fazer a reabilitação em São Paulo.

Por meio de nota, o Cristália afirmou que, para casos crônicos -lesões mais antigas- está "conduzindo estudos experimentais em animais para definir como (e se) o tratamento poderá ser realizado em humanos. Até o momento, os dados disponíveis não permitem dizer que o uso em pacientes com lesões crônicas é seguro e eficaz".

O laboratório não está cadastrando pacientes com esse perfil. "Sabemos da expectativa desse público e, caso haja inclusão em estudos futuros, essa informação será divulgada oficialmente por nossos canais", diz o texto.

17 decisões judiciais já foram cumpridas

As aplicações compassivas da polilaminina, realizadas por determinação judicial, já são pelo 17, em todo o país. Até agora, nenhum relato de reação adversa foi registrado pelo grupo de pesquisa, que vem se desdobrando para conseguir dar conta de toda a demanda.

O laboratório Cristália, parceiro da pesquisa e quem produz a substância, não tem cobrado pelo fármaco, que tem sido injetado em hospitais públicos e privados. A empresa alerta que não existe venda da polilaminina em nenhum meio e que apenas ela detém a fórmula.

"Não podemos disponibilizar o medicamento polilaminina antes da aprovação do seu registro pela Anvisa. Atualmente, estamos iniciando o estudo clínico de fase 1, voltado para lesões agudas, sendo esta a primeira etapa de estudo regulatório em humanos, com o objetivo principal de provar a segurança do medicamento", informou o laboratório, por meio de nota.

O Espírito Santo é o estado com mais pacientes, quatro, até agora, e pretende ser um polo de apoio para a pesquisa e montar, inclusive, um centro de reabilitação específico para pessoas que passaram pelo procedimento, segundo Mitter Mayer, assessor especial do governo capixaba e membro do comitê da polilamina.

Em Vitória, um jovem que se acidentou em uma cachoeira, lesionando as vértebras C4, C5 e C6, recebeu polilaminina há cerca de 20 dias, por ordem da Justiça, e está movimentando os braços e parcialmente as mãos e os dedos. Para os pesquisadores, ele é um dos casos mais emblemáticos até agora de avanços. Esse processo específico está sendo totalmente documentado.

No quadro dele, o mais esperado era uma retomada de movimentos nos ombros, segundo a literatura médica. Especialista ressaltam, porém, que é possível avanços de melhora em até dois anos após a lesão, o que depende de estimulações, neuroplasticidade e o próprio organismo do paciente.

De acordo com acompanhamento da reportagem com os pacientes e de informações vindas de equipes médicas, pelo menos 12 pessoas tiveram manifestações de sensibilidade ou já fizeram movimentos após a aplicação da substância.

Os especialistas afirmam que as reações variam em cada organismo e que fatores como acesso a uma boa reabilitação, com fisioterapia intensiva, o estado geral de saúde e emocional dos pacientes podem interferir nos possíveis resultados.

Comentários

Comentários