OPINIÃO

Neuroses e pavões


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Caso eu peça para vocês fecharem os olhos para pensar em uma ave “exótica”, acredito que a maioria deve ter pensado em um pavão. Não é para menos, pois os machos da espécie são únicos em beleza e mesmo em comportamento, ao cortejar as fêmeas com um enorme leque de plumas coloridas, com desenhos que lembram centenas de olhos atentos.

Com certeza este comportamento de cortejo e reprodução é bem interessante, mas vou falar de outro aspecto desta ave deslumbrante que poucos conhecem: eles simplesmente detestam serpentes.

Para além de comportamento alimentar, o pavão macho sistematicamente elimina todas as serpentes que cruzarem seu caminho, ou até mesmo “algo” que lhe lembre uma serpente. Caso encontre espaguete cozido no chão, o pavão vai bicá-lo com violência até que “vire picadinho”.

Qual o motivo deste instinto tão apurado? Mesmo sendo uma ave, os pavões não são voadores exímios e constroem seus ninhos no chão. Desta forma, a maior ameaça para a prole são as serpentes e cobras que podem acessar facilmente ovos e filhotes neste ambiente.

Não sabemos se um pavão sente algo como raiva ou medo ao ver a forma serpentina próxima de si, mas o instinto o move para atacar o objeto tem uma força equivalente à uma forte emoção e é bem alinhado com a sobrevivência da própria espécie.

Uso desta história vez ou outra para ilustrar que as nossas emoções emergem dos mesmos instintos naturais que regem a sobrevivência na vida, igual ao que ocorre com os pavões. Caso alguém faça algo que lhe ameaça o bem-estar, esteja ela certa ou errada, é natural que se sinta raiva desta pessoa.

O que ocorre diferente no ser humano é que ele coloca ao lado das demandas biológicas a moralidade e uma ética superestimadas como condição essencial para a felicidade. Então, para o animal “ser humano moderno”, possuir rancor e raiva é socialmente reprovável e por isso não devem ser sufocados em uma atmosfera de “perdão imediato e incondicional” que permeia o modelo de cidadão exemplar.

Colocando a própria psiquê no mais alto nível de idealismo, é natural que o ser humano sinta-se inadequado diante de algo irrealizável por contrariar uma premissa biológica básica e fortíssima: a sobrevivência precede a perfeição que o cotidiano moderno exige.

Na vida “de verdade”, quase nada sai como o planejado e muita coisa não dá certo. Desde projetos até relacionamentos, leva tempo, trabalho e algumas lágrimas para se estruturar algo sustentável e quase nunca é o “perfeito” que se esperava.

Diante desta realidade as pessoas começam a encher a própria vida com o medo de tentar, pois teriam que lidar com as consequências das próprias escolhas e os sentimentos que elas trazem, grandes e pesados demais devido à fricção que criam com o que é biologicamente viável, mas moralmente questionável. Daí começam as neuroses de ser perfeito que nos distanciam da própria existência humana.

Fico imaginando o resultado desta neurose nas penas dos pavões, caso eles se julgassem pelos sentimentos de quando veem massa italiana fresca “perdida” no chão. Poderíamos estar diante dos primeiros casos de alopecia entre pavões.

 

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica.

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