OPINIÃO

Dois treinos estranhos


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Caso você se deparasse com a cena no seu celular, poderia achar que é algum tipo de brincadeira ou uma destas “pegadinhas”, mas não se trata de encenação. Inclusive garanto que, ainda que pareça um pouco bizarro, é algo bem útil.

O vídeo mostra um idoso caminhando sobre um tatame grosso como um colchão e, ao seu lado, está o seu treinador caminhando com o corpo rente ao dele, por vezes sendo um apoio que o auxilia a andar. Então, de forma inesperada, o treinador induz o desequilíbrio do idoso com um empurrão leve ou mesmo retirando o apoio do próprio corpo bruscamente. A reação do idoso é digna de atleta, recobrando o equilíbrio rapidamente, ampliando a base de apoio no solo ou estendendo os braços para se segurar em um anteparo.
O colchão é para a segurança física do cliente, necessário quando a reação treinada se mostra insuficiente. Em alguns casos pode-se utilizar um equipamento de segurança para escalada, conectando o idoso no teto (pasmem!) deixando-o longe do solo, mesmo que perca o contato com os dois pés.

Por que pendurar idosos no teto de academias pode, no fim das contas, ajudá-los? A longevidade do nosso país cresce como nunca vimos e é comum hoje em dia os nossos idosos estarem bem ativos na sétima ou oitava década de vida. Neste momento de vida quedas “domésticas” podem ter consequências graves e mesmo fatais, visto que entre 2023 e 2024 quase 12 mil idosos faleceram (isso mesmo!) em decorrência de quedas comuns e inofensivas em outros momentos da vida.

A perda da capacidade neuronal e muscular de fazer uma reação adequada em consequência do avanço da idade pode ser evitada e mesmo revertida com este tipo específico de treinamento, daí o valor dele para a saúde dos anciãos.

Contudo, gostaria de aproveitar o espaço e a conversa para relevar outro treino igualmente estranho, pois acreditamos que ele ocorra naturalmente, mas, como no anterior, a idade avançada pode nos deixar “enferrujados”.

Trata-se da habilidade social. Com a senilidade é comum que as pessoas se fechem e se limitem dentro das suas casas, sendo cada vez menos estimulados a saírem e socializarem. Contato humano é fundamental para a saúde e, da mesma maneira que existem estudos sobre quedas, há provas consistentes na prevenção de demências e depressão com o reforço da socialização e dos laços familiares.

O idoso não se fecha porque ele quer ou por ter ficado “ranzinza”. A vida cobra caro pela longevidade, através de perdas dos entes queridos, amigos e a através da perda de habilidades manuais e destreza. Com isso ele pode se sentir inútil e um tanto deslocado do próprio ambiente, gerando um misto de culpa e indignação que frequentemente leva à depressão como uma resposta do próprio sistema nervoso para se adaptar diante de tanta mudança e perda.

O treino para isso é menos insólito que o primeiro; criar oportunidades para encontros de família sem motivo nenhum em especial, convívio com os mais jovens (e a estes ensinar o respeito à velhice como símbolo de resiliência) e tudo isso “ao vivo”, já que redes sociais servem para recados e logística, mas não substituem o calor humano.

Dr. Alexandre Martin é médico especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica

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