Passei silencioso pela porta de correr que separa a sala de aplicação do corredor, no meu consultório. A minha paciente estava deitada na maca, tranquila e adormecida, ainda que possuísse mais de dez agulhas de acupuntura posicionadas nos pontos que tratavam a sua condição de dores nas costas.
Esta situação é mais comum do que se imagina, apesar de causar certo espanto a quem não está acostumado “ao poder” de uma aplicação de acupuntura. Como efeito “geral”, ela desativa o “modo de luta ou fuga” que os pacientes agitados e com dor possuem ligado constantemente. O relaxamento atingido é tão contrastante com a situação anterior que é frequente o paciente se entregar e dormir durante a aplicação, só despertando quando eu já estou retirando as agulhas, como foi o caso.
- “Nossa!’ – disse a cliente, despertando devagar- “dormi mesmo! Estava até sonhando!” – completou.
- “Sério?” – emendei fingindo um espanto caricato com meu rosto. Logo, voltei a minha versão mais médica e séria perguntando: “sonhou com o quê?”.
Alguns estranham a pergunta, mas ela faz parte do tratamento e eu realmente estou interessado em saber. Afinal, o sonho é algo muito especial, um contato genuíno com o “compartimento” inconsciente da mente ao qual se atribui participação em vários sintomas.
Não é fácil falar sobre o inconsciente e os sonhos sem ser simplista, já que existem obras inteiras sobre essa interação, mas eu escolho correr o risco aqui, reproduzindo um exemplo que cito com frequência no meu trabalho: Imagine que a nossa mente atua no “palco” do teatro da vida segundo suas programações, sentimentos e várias personalidades que precisam ser sustentadas para nos tornarmos quem nós acreditamos que somos.
Naturalmente, toda escolha de “papel” para o “teatro da vida” deixa de fora alguns atores e roteiros, porque em algum momento da nossa vida nós os julgamos estranhos ou socialmente reprováveis. Eles não são necessariamente maus, mas ganharam a penumbra da coxia em vez das luzes dos holofotes.
Bom, estes “excluídos” não deixam de existir, eles somente ficam “atrás das cortinas”, acompanhando o espetáculo, atentos, esperando uma hora para entrar. Esta hora quase sempre é quando o espetáculo já terminou e o “público” – os outros seres do mundo – vão-se embora. Uma oportunidade destas se concretiza na intimidade do nosso sono tal como um palco vazio com somente a nossa fugaz consciência “sentada” em uma cadeira no meio da terceira fileira da plateia.
Todas as ideias, desejos e vontades que se recolheram e não foram “aprovadas” para participarem do elenco principal se reúnem então para performar, sem o peso de eventuais críticas ou julgamentos, esperando a aprovação e a possibilidade de serem escaladas para o “programa principal”.
A maioria que performa por ali e vai ser responsável pelos “sonhos loucos” que temos, sendo poucos os “aprovados” para se exibirem ao grande público, quando acordados no nosso dia a dia. Contudo, todo o apresentado terá sempre base em uma demanda verdadeira, uma percepção do corpo ou, no caso da minha cliente, algo sobre a dor nas costas que ela vem sentindo.
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica