Me lembro de como o Luciano Huck me provocou um dos maiores sentimentos de vergonha alheia que já tive. Em um de seus quadros no seu antigo programa - o Caldeirão do Huck -, ele fez o pedreiro Seu Luizinho e sua família "pagar um mico" em rede nacional para ganhar seu carro reformado no quadro "Lata Velha". O Logus do seu Luizinho se transformou no "Pedreiromóvel" e a reação do seu dono foi uma das coisas mais vergonhosas da TV.
Mas o marido da Angélica me causaria mais vergonha alheia. No último sábado, em evento para empresários no Guarujá, o apresentador disse que há uma “falta de estímulo” por parte dos beneficiados para sair do Bolsa Família. "Na verdade, elas [famílias beneficiadas] queriam um monte de atalhos para conseguir ficar no programa ad aeternum”.
Eu poderia responder o Luciano falando que, em 2026, o Bolsa Família chegou a cerca de 19 milhões de famílias e que, desde 2003, quando foi criado - com o nome Programa Fome Zero - ajudou o Brasil a sair do Mapa da Fome da ONU pela primeira vez em 2014. Mas ele é um cara bem informado e deve saber disso.
Eu também poderia dizer que se programas de segurança social como o Bolsa Família causa uma "dependência", países como a Alemanha que paga 225 euros por criança para toda e qualquer família alemã que solicitar o Kindergeld ("dinheiro da criança" em tradução livre), ou como o Canadá que tem pelo menos três programas de segurança social que dão dinheiros para as famílias canadenses por cada filho que ela possui. Mas ele também deve saber disso.
O que o Luciano Huck não sabe é da história que eu conheci quando eu tinha 17 anos. Na minha cidade, havia um programa chamado "Estação Juventude", voltado para oferecer atividades culturais e artísticas para as crianças após a escola. Funcionava assim: após a escola, as crianças passavam a tarde toda nessas instalações espalhadas pela cidade para ter aulas de música, artesanato, circo... Tudo isso para não ficarem tempo demais na rua à mercê dos perigos, principalmente nos bairros periféricos.
Eu era professor de teatro de uma dessas estações e conheci um menino que chamarei aqui de Tião. Tião era uma criança muito amável que adorava fazer teatro. Tinha uma habilidade incrível de decorar textos, mas uma mania incorrigível de rir em cena qualquer cena que fosse. Dizia ele que tinha vergonha na hora da atuação e por isso ria. Era uma criança feliz.
Mas sua cara alegre desaparecia na hora do lanche. Enquanto todos comiam a refeição oferecida pela prefeitura - normalmente pão recheado com frios, bolachas e achocolatado -, Tião escolhia não comer. Pegava seu lanche e guardava na pequena mochila do Pokémon que carregava. Aquilo me causava estranhamento, pois ele era literalmente o único que não comia com os demais. Dizia ele que não tinha fome e que guardaria para comer depois.
A coordenadora daquela unidade havia me contado um dia que aquele lanche da tarde era o maior atrativo da Estação Juventude. Muitas crianças só faziam parte do programa porque era a chance que tinham de tomar um café da tarde. Realidade comum no nosso país que até foi cantada pelos Racionais em "O Homem na Estrada" no trecho "... só vou para escola para comer e apenas nada mais".
Depois de algum tempo de intimidade com o Tião, eu perguntei para ele se ele não queria comer o meu lanche. Eu disse que eu não estava com fome. Ele aceitou e comeu o lanche extra. "Você leva o seu lanchinho pra comer em casa, né?", perguntei. "Sabe o que é, tio. Eu levo para meus irmãos. Às vezes minha mãe não consegue fazer janta pra gente". Aquilo embrulhou meu estômago e me fez, a partir daquele dia, guardar o meu lanche para o Tião todas as vezes.
Mas um certo dia, eu o vi feliz da vida no intervalo comendo seu lanche como toda criança ali. Ainda sim resolvi guardar o meu para que ele pudesse levar para casa. Ao perceber que eu não estava comendo, minha coordenadora me perguntou o motivo e eu expliquei. "Mas hoje, é a primeira vez que eu vejo ele comendo o lanche dele. Será que a situação na casa dele melhorou para ele não precisar levar para casa?", perguntei. "A mãe dele é costureira, eu conheço ela. E ela conseguiu, finalmente, pegar o Bolsa Família", me contou a minha coordenadora.
Eu não sei mais sobre o Tião e o que aconteceu com ele depois que eu saí do projeto meses depois. Mas eu sei que a partir daquele dia, eu virei um defensor ferrenho do Bolsa Família e um crítico voraz a qualquer um que tente falar mal desse programa que por mês ajuda 19,08 milhões de famílias como a do Tião. Um "gasto" de 12 bilhões de reais por mês. Mesmo valor, segundo notícia do UOL, do patrimônio de apenas 8 famosos (mais ricos) do Brasil. E adivinha só quem é um desses famosos?
Conhecimento é conquista.
Felipe Schadt é jornalista, professor e cientista da comunicação