Todos os que militam na seara ecológica sabem o quão é difícil fazer com que se forme uma consciência coletiva quanto ao maior perigo que já rondou a humanidade e a ameaça de sua não remota extinção. Os que me leem sabem que estou falando do aquecimento global, causado por nós mesmos, de forma inclemente e impunemente.
Só que livros, palestras, ensaios, teses e discursos atingem apenas os já convertidos. Os que deveriam se interessar continuam alheios e impassíveis.
Por que não tentar a arte para mostrar aos viventes que todos estamos destruindo a Terra, o único habitat com que podemos contar?
Duas exposições gratuitas na capital, tão próxima a nós, precisam ser visitadas por todos os paulistas. A primeira se chama “Langsdorff: a expedição fluvial 200 anos depois”, está na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Cidade Universitária. Vai até dia 26 de junho.
Reconstitui a viagem que o naturalista alemão Georg Heinrich von Langsdorf fez entre 1826 e 1829. É uma interessante forma de verificar o estrago que fizemos com o nosso maior patrimônio, a biodiversidade, e concluir que a natureza tem razão de estar ressentida com o bicho-homem.
O cientista percorreu mais de 13 mil quilômetros pelo interior do país, do Tietê ao Amazonas. Foi muito custosa para seu responsável: durante os três anos houve a morte do Czar, que autorizara a excursão e Langsdorff contraiu malária. Da equipe também participava Hercule Florence, então com 22 anos, que elaborou o único diário, a memória completa da jornada.
Ao lado das belas imagens estão registradas em aquarelas por Rugendas, estão fotografias dos incêndios e da degradação. É mais elucidativa essa visita, do que muita aula insossa de ecologia.
A segunda mostra é chamada “A Terceira Margem da Terra”, está no MUBE, o Museu Brasileiro da Escultura e da Ecologia, à rua Alemanha, 221, Jardim Europa. Vai até 17 de maio. Exibe o percurso arquitetônico do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, com uma leitura ecológica. Paulo era um homem sensível e preocupado com a devastação, principalmente a cultural. Ele não queria “congelar” o mundo que existia durante sua vida, mas melhorar sua qualidade, com a mínima intervenção. Por exemplo, adotando soluções baseadas na natureza e não persistir na horrorosa prática habitual de se servir de soluções alicerçadas no concreto, no aço, no ferro e no vidro.
O maltrato do verde, a impiedade em relação à água, o excessivo uso do asfalto, a produção exagerada de lixo, tudo está nesta surpreendente exposição. Observem, por exemplo, a obra “Coletivo Três”, de Cássio Vasconcellos, com fotos aéreas sobrepostas expondo o cenário caótico onde carros transitam por todos os lados e não há mais espaço para as pessoas. Fenômeno que não se restringe à capital, mas já acomete também a nossa Jundiaí, que já foi tão pacata e mais acolhedora.
Vale a pena visitar as duas exposições. Principalmente as crianças, que precisam ser conscientizadas, porque são elas que sofrerão a catástrofe, se tudo continuar no impositivo crescimento das emissões dos gases venenosos causadores do efeito estufa. Aproveite o domingo de catraca zero, com ônibus gratuitos na capital e visite as duas belas exposições, também com livre acesso e uma carta imperdível de material para deleite e reflexão.
José Renato Nalini é reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo