OPINIÃO

Pelas árvores nas calçadas


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Nesse jornal, inúmeras matérias e artigos já foram publicados em defesa das árvores urbanas. Ambientalistas se manifestam constantemente, vereadores alardeiam a desertificação e o aumento da temperatura nas áreas urbanas, as ilhas de calor, a falta de água e dezenas de argumentos para chamar a atenção para esse lapso grave que mobiliza tantos defensores dessas árvores remanescentes. E, principalmente, existe a vontade de plantar muito mais.

O que parece certo é que o número de solicitações de supressão passa muito além do número de plantios. Suprimir e replantar não garante absolutamente que uma árvore chegará ao tamanho e à forma corretos. Muitas vezes, passam despercebidas mudas que já não estão mais nos lugares onde foram plantadas. Há calçadas inteiras onde os espaços vazios deixados pelas árvores permanecem e nunca mais foram recompostos. Aos poucos, a ausência vai sendo naturalizada.

Daí a preservação daquelas que já estão formadas precisar ser mais efetiva e respeitada, o que não acontece com as podas. Com muita frequência elas são feitas de maneira amadora e desastrosa. Deformam as árvores e o que era bonito fica muito feio.

Hoje, em muitas vias, a lógica parece invertida: a calçada deve ser lisa, rápida, neutra, sem obstáculos. A árvore tornou-se um problema técnico. É evidente que existem questões reais. Raízes levantam pisos, espécies inadequadas comprometem redes elétricas, galhos envelhecidos oferecem risco. Mas a solução encontrada com frequência — a supressão — revela uma pobreza de imaginação urbana. Derruba-se primeiro e planeja-se depois - quando se planeja.

Exemplo memorável foi o que fez, no Jardim Rio Branco, o prefeito Walmor Barbosa Martins (gestão 1969-1973), que mandou plantar ipês-amarelos em todo o bairro. Podia-se ver o resultado, principalmente durante a floração: tudo ficava amarelo. Do viaduto sobre os trilhos da Fepasa tinha-se uma das vistas mais bonitas. Durante algumas semanas do ano, o bairro parecia atravessado por uma espécie de luz dourada.

Não foi um exemplo perfeito para ser simplesmente replicado. Hoje sabe-se que árvores não podem ser repetidas como um padrão europeu rígido; aqui, a diversidade precisa ser considerada. Nem por isso deveriam ser suprimidas — e foram. Hoje contam-se nos dedos os remanescentes daquela época, e mesmo as que insistem em permanecer continuam ameaçadas.

Se erros na escolha das espécies arbóreas foram — e ainda são — frequentes, as correções dos vazios deixados não estão sendo refeitas, complementadas ou executadas adequadamente. Além disso, aquelas árvores eram uma característica que dava identidade ao bairro e permanecem na memória afetiva dos moradores. Mas o incômodo que parecem causar acaba justificando a supressão.

Perde-se a árvore e perde-se junto parte da paisagem emocional da cidade. Esse lugar precisava voltar a ter uma arborização adequada, ajustada à complexidade técnica e paisagística contemporânea, e voltar a ser verde. Precisava recuperar, ao menos durante as florações, a alegria e o prazer que ainda poderíamos fruir.

Eduardo Carlos Pereira é arquiteto e urbanista

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