OPINIÃO

A Política e o futebol, o deputado e Neymar


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Na última semana, o Deputado Federal Hélio Lopes, o "Hélio Negão", do Partido Liberal, enviou um ofício à CBF pedindo a convocação de Neymar para compor o elenco da Seleção Brasileira que irá à Copa do Mundo 2026, alegando que ele não é "apenas um jogador".

Ora, a Câmara dos Deputados é uma casa onde seus nobres parlamentares devem discutir o futuro da nação, elaborar leis em prol da população e fiscalizar o Executivo. Usar da sua "patente" para pedir jogador na Seleção, é uma finalidade indevida do cargo que ocupa. Há mais para se fazer em Brasília.

Eu lamento muito que, em ano eleitoral, se use do futebol para proveito político. E aqui, lembro que a demagogia no futebol existe desde sempre.

Lembremos de João Havelange, quando presidente da FIFA, com seu rodízio de continentes para agradar asiáticos e africanos (garantindo os votos dos países daquelas confederações e se elegendo) usou e abusou desse artifício. Aliás, a geopolítica da FIFA é diferente de tudo o que há: temos, representando a América, a Conmebol e a Concacaf. Em vez de 5 continentes, para ela, o planeta tem 6.

Gianni Infantino, o atual presidente, em uma das festividades para a Copa 2026 deu um "Prêmio da Paz da FIFA", inventado naqueles dias para presentear Donald Trump, o presidente dos EUA, por promover a pacificação do mundo (lembrando: Trump reivindicou um Nobel da Paz, mas quem a ele deu, foi a FIFA...). Aliás, a Rússia invadiu a Ucrânia e foi excluída das competições internacionais. Os EUA atacaram o Irã, e nada mudará (não estou isentando o governo iraniano de seus males causados, mas é uma observação de coerência / incoerência).

O próprio Infantinno, dias atrás, tentou fazer com que os representantes de Israel e Palestina dessem as mãos como gesto de conciliação, e isso causou um constrangimento... Ambos se negaram ao gesto e uma situação delicada ali se criou.

Voltando ao Brasil: é época de político vestir a camisa do seu time local e fazer demagogia. Aqui, o caso do deputado Hélio Negão tem uma particularidade: Neymar é confesso eleitor de Direita, e tem como candidato Bolsonaro. Se Neymar fosse de Esquerda, existiria tal ofício?

Para mostrar isenção do espectro ideológico desse texto: não nos esqueçamos que o "Estádio de Itaquera", a atual “Arena Neo Química", surgiu de uma conversa de Lula com a família Odebrecht. O CEO da construtora, Marcelo Odebrecht, em delação premiada, contou que não queria a obra, pois não acreditava receber do Corinthians. E o patriarca e fundador da empresa, Emílio, justificou que era necessária a construção para atender o pedido de um "Amigo".

Enfim: o pão-e-circo promovido pela Política através do Futebol sempre existiu, algumas vezes mais velada e em outras mais escancaradas, procurando atender os anseios dos interessados.

Diante disso, o leitor e o torcedor pensarão: então, nem sempre os melhores são convocados para a Seleção Brasileira? Óbvio que não! Em muitas vezes, a pressão de um empresário influente ou de um patrocinador podem implicar no nome a ser escolhido. Ou, exatamente ao contrário: por questões mercadológicas, um atleta patrocinado por um rival pode ser excluído.

Não sejamos ingênuos: a meritocracia é apenas um dos fatores levados em conta. Não nos esqueçamos: João Saldanha, comunista reconhecido, foi trocado por Jorge Mário Zagallo às vésperas da Copa de 70 por se recusar a convocar Dadá Maravilha (“O presidente escala o ministério, a seleção escalo eu” - disse Saldanha a Emílio Garratuz Médici).

E assim “a banda anda...”.

Rafael Porcari é professor universitário e ex-árbitro de futebol 

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