A fibromialgia ganhou um novo patamar de visibilidade no Brasil desde a sanção da Lei nº 15.176/2025, que passou a prever um programa nacional de proteção aos direitos das pessoas acometidas pela condição. Hoje (12) é o Dia Mundial da Fibromialgia. E no mês de conscientização sobre a doença, especialistas alertam que o avanço institucional é relevante, mas não encerra os desafios enfrentados pelos pacientes.
Para Marcelo Valadares, responsável pela área de neurocirurgia funcional na Unicamp, especialista em dor crônica e conselheiro científico da Associação Nacional de Fibromiálgicos e Doenças Correlacionadas (Anfibro), o principal avanço foi tirar a doença da invisibilidade. “O reconhecimento legal ajuda a validar uma condição real, associada a alterações no processamento da dor pelo sistema nervoso central”, afirma.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), a fibromialgia afeta cerca de 3% a 5% da população brasileira, com maior frequência entre mulheres, embora também possa acometer homens, idosos, adolescentes e crianças. Além da dor difusa, os sintomas podem incluir fadiga, distúrbios do sono, ansiedade, depressão e alterações de memória e atenção.
A doença é uma condição de dor crônica relacionada à sensibilização central, mecanismo em que o sistema nervoso passa a amplificar estímulos dolorosos e não dolorosos. “Na fibromialgia, dificilmente encontramos lesões visíveis em exames, e essa falta de evidências pode levar a diagnósticos equivocados ou tardios, aumentando o estigma dessa condição crônica”, explica o médico.
O que mudou após a nova lei
A Lei nº 15.176/2025, que entrou em vigor em janeiro de 2026, prevê a possibilidade de reconhecimento de pacientes fibromiálgicos como pessoas com deficiência mediante avaliação biopsicossocial multiprofissional e interdisciplinar, considerando os impedimentos e as restrições do indivíduo.
A avaliação é essencial para evitar minimizar a dor ou transformar todo diagnóstico de fibromialgia em incapacidade automática. “O desafio é garantir a avaliação adequada. O médico precisa olhar para a funcionalidade, impacto no trabalho, autonomia, sono, saúde mental e resposta ao tratamento. Isso confere proteção legal ao paciente com impacto funcional significativo”, defende o especialista.
A nova legislação também reforçou diretrizes como atendimento multidisciplinar, disseminação de informações, capacitação de profissionais, estímulo à inserção no mercado de trabalho e incentivo a estudos epidemiológicos.
Tratamentos indicados para a fibromialgia
Na prática clínica, as evidências apontam que o cuidado mais eficaz é multimodal. Segundo o PCDT de Dor Crônica do Ministério da Saúde/Conitec, que orienta o manejo de quadros de dor crônica no país e inclui a fibromialgia entre as condições associadas, o tratamento deve combinar educação sobre dor, atividade física progressiva, abordagens psicológicas, manejo do sono, reabilitação e, em casos selecionados, intervenções farmacológicas.
Os medicamentos moduladores da dor, como duloxetina, pregabalina, milnaciprano e amitriptilina podem ser indicados conforme o perfil de sintomas, principalmente quando há dor intensa. “Se não estiver integrado a um plano amplo de tratamento, o uso isolado de medicamentos raramente dá conta de reduzir o sofrimento, preservar a funcionalidade e melhorar a qualidade de vida do indivíduo”, alerta o médico.
Já a atividade física, quando bem orientada, é uma das bases do tratamento. O objetivo não é impor esforço excessivo, mas iniciar movimentos possíveis e progressivos, a fim de reduzir a sensibilidade do sistema nervoso ao longo do tempo. Segundo o Dr. Valadares, repouso absoluto tende a piorar a funcionalidade. Por outro lado, a sobrecarga também pode agravar os sintomas. “O corpo precisa ser recondicionado com segurança, e os exercícios mais benéficos costumam ser aeróbicos graduais, fortalecimento, alongamento, fisioterapia e hidroterapia, dependendo do paciente”, observa.
Cuidados com a saúde mental
A fibromialgia também exige atenção a quadros de ansiedade, depressão e estresse crônico. Em muitos pacientes, o sofrimento emocional aumenta a percepção dolorosa; em outros, a dor persistente desencadeia isolamento e perda de autonomia.
“Quando o paciente recebe apenas uma prescrição, sem reabilitação e sem suporte emocional, ele tende a se frustrar. A fibromialgia exige coordenação entre diferentes áreas do cuidado para que haja ganho real de qualidade de vida”, conclui o profissional.