No fim dos anos 70, o neurocientista Paul McLean propôs uma teoria de funcionamento cerebral que ajuda compreender o nosso comportamento frente às adversidades da vida, visto o papel crucial do sistema nervoso nesta tarefa. Conhecida como “teoria do cérebro trino”, ela não é um modelo perfeito, mas sua utilidade supera as críticas, tornando-a bem conhecida do grande público leigo. Vou usar agora uma versão dela que adaptei para explicar-lhes um pouco sobre traumas emocionais.
Imagine seu cérebro como um prédio de três andares; as moradias do térreo são mais baratas e rápidas de serem acessadas e por isso foram habitadas primeiro, sendo também as mais antigas. Este “andar” é comprometido com as praticidades que servem o prédio inteiro, como água, luz e conexão com a internet. Na nossa alegoria entre moradia e corpo humano isso equivale aos movimentos respiratórios e do intestino, ritmo cardíaco, níveis de açúcar e oxigênio do sangue, todos fundamentais e que ocorrem o tempo todo, mas dos quais têm-se pouca (ou nenhuma) consciência.
Para estes “inquilinos” do térreo, moradores do nosso anedótico “edifício cerebral” o importante é a sobrevivência, manifesta na capacidade de “sustentar o básico e fundamental”. Veja que o cérebro do “térreo” não se preocupa com desempenho ou “qualidade” – basta manter tudo funcionando, custe o que custar.
Em contraste com o térreo, os moradores do andar mais alto, mais caro por ser “cobertura” e o último a ser habitado, são aqueles que têm a “visão mais ampla” por conta da posição que ocupam, mas que estão um pouco distantes da realidade que se passa no nível da rua. Na nossa comparação, seriam as áreas mais recentes do nosso cérebro, que se ocupam de tarefas que só surgiram na nossa espécie depois de muito tempo de evolução, tal como linguagem e lógica.
Os moradores da “cobertura” do nosso cérebro são bons em analisar, descrever, criar teorias a ponto de se acharem os “maiorais”, acreditando que toda funcionalidade do prédio está com eles. Desejam tudo perfeito e organizado segundo o que idealizam e se preocupam com felicidade e realização. Contudo, é muito fácil se esquecer que eles só conquistaram isso tudo porque o térreo sempre esteve firme e consistente no problema da sobrevivência.
Volta e meia passamos por situações dolorosas e estressantes que demandam algum tipo de atitude para proteger nossa integridade física e mental. Caso essas situações sejam tão intensas que os inquilinos da cobertura não conseguem elaborar uma explicação e nem imaginar uma “saída” para o problema, o sofrimento pode ser tão profundo que o ameaça o trabalho básico e fundamental do “pessoal” do térreo... e isso eles não podem admitir.
Para evitar que os fundamentos do prédio colapsem, os inquilinos do térreo “trancam” o problema com o qual ninguém soube lidar em uma sala distante, em um canto esquecido e escuro. Claro que isso causa consequências: como todo mundo tem receio do que está preso lá, aquela parte do prédio fica isolada do resto, imobilizando de medo qualquer um que se aproxima.
Somente com trabalho de médicos e terapeutas é que estas salas podem se tornar disponíveis novamente, depois de trazer de volta para a luz o que foi preso por medo e incompreensão.
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa e osteopatia