VÍNCULOS

Solidão cresce entre adultos e desafia criação de amizades

Por Giulianna Mazzali |
| Tempo de leitura: 4 min
Jornal de Jundiaí
Arquivo pessoal
Brenda Mendes explica por que a vida adulta dificulta a criação de novas amizades
Brenda Mendes explica por que a vida adulta dificulta a criação de novas amizades

Durante o período da infância, não é preciso muito para fazer novos amigos. Um lanche compartilhado ou um brinquedo legal já são suficientes para que as crianças se aproximem e comecem a brincar como se estivessem juntas a vida inteira. Na adolescência, mesmo com as pressões sociais e as inseguranças, o convívio escolar faz com que, inevitavelmente, pessoas com gostos parecidos se aproximem e formem tribos inseparáveis. Na vida adulta, porém, criar vínculos parece um desafio para muitas pessoas.

Um estudo publicado no American Journal of Preventive Medicine revelou que cerca de quatro em cada cinco estadunidenses relatam algum grau de solidão. Já no Brasil, uma pesquisa deste ano realizada pela ONG Family Talks, em parceria com a Market Analysis, traçou o perfil dos brasileiros que se sentem solitários — eles são quatro em cada dez entrevistados, com 46,2% sendo mulheres.

De acordo com Brenda Mendes, psicóloga clínica que trabalha com temas voltados às relações interpessoais e padrões de comportamento, a dificuldade em fazer novas amizades é fruto da própria rotina. “Na vida adulta, as relações deixam de ser estruturadas pelo ambiente e passam a depender de iniciativa. Na infância e adolescência, a convivência é repetida e obrigatória, o que facilita o vínculo. Com os adultos, o contato precisa ser intencional, o que exige esforço e disposição emocional.”

A psicóloga alerta para os impactos da solidão na saúde emocional

Outro detalhe revelado pela Market Analysis é que a grande maioria das pessoas que relatam esse tipo de sentimento têm entre 18 e 44 anos. Os grupos mais jovens demonstram o peso das redes sociais nesse quadro — a pesquisa constatou que, quanto maior o estresse com a vida digital, maior a solidão.

“As redes sociais criam uma falsa sensação de proximidade. A pessoa sente que está ‘acompanhando’ a vida do outro, mas sem interação real. Isso reduz o investimento em vínculos mais profundos e pode até causar frustração”, explica a profissional.

Brenda reforça que existe uma diferenciação muito importante a se fazer. Segundo ela, estar sozinho pode ser uma escolha e é chamado de “solitude” quando acompanhado de conforto, autoconhecimento e prazer na própria companhia. Já a solidão é uma sensação de desconexão que não depende do estar sozinho fisicamente, é algo prejudicial que vem acompanhado de sensação de vazio, dificuldade de pertencimento ou isolamento emocional.

A psicóloga ainda alerta que a ausência de vínculos consistentes pode aumentar o risco de ansiedade e depressão, bem como trazer riscos à saúde física. “O convívio social funciona como um facilitador de comportamento. Muitas atividades se tornam mais sustentáveis quando envolvem outras pessoas, como treinar, manter um hobby ou até cumprir pequenos compromissos do dia a dia.”

Brenda reforça que existem alguns meios para construir novas amizades, como demonstrar interesse de forma concreta e aceitar um certo nível de desconforto inicial. Além disso, ela afirma que frequentar ambientes que favoreçam a convivência repetida, como grupos de atividade física, favorece a criação de vínculos.

Um desses grupos é o AF Club, criado em Jundiaí pela Amanda Fantine. Aos 32 anos, a profissional de educação física decidiu juntar o desejo de levar os benefícios da atividade física para mais pessoas com a profissão de personal trainer. “Em fevereiro, desafiei minha aluna a correr sua primeira prova de 5 km. Senti que ela não acreditava em si mesma e fazê-la ter coragem de enfrentar esse desafio virou uma missão pessoal. Então, pensei que poderia chamar mais algumas amigas que também quisessem começar a correr.”

Amanda Fantine criou um grupo de corrida em Jundiaí para incentivar a prática esportiva e fortalecer conexões

 

Amanda relata que, no início, era apenas um grupo de WhatsApp, mas o projeto cresceu tanto que já reúne mais de 130 mulheres. A proposta é incentivar mulheres a praticarem alguma atividade física.

“Percebi que a maioria das pessoas desiste por não ter companhia. Minha própria experiência em ter dificuldade de fazer novas amizades na vida adulta me influenciou a criar o grupo. Ele virou uma forma de criar novas conexões, que não sejam apenas no trabalho. As participantes relatam a mesma coisa”, explica a personal.

Para ela, as mulheres ficam muito sobrecarregadas com os afazeres e a jornada tripla de casa, trabalho e família, então acabam negligenciando momentos de lazer com as amigas. “A principal mudança que observo nas mulheres é a autoconfiança. A convivência social com um grupo que te motiva e faz acreditar em você mesma é um grande diferencial. Às vezes, essas pessoas não têm família ou amigos que apoiam. O clube é uma oportunidade de criar conexões significativas.”

O AF Club se reune todo último sábado do mês, no Vale Azul, localizado no Caxambú, para um treino de corrida para iniciantes aberto a todas as mulheres, mesmo as que não fazem parte do clube.

Amanda ainda deixa um conselho para quem se sente solitário e gostaria de construir novos vínculos: “Entendo que dar o primeiro passo é difícil, mas sempre incentivo as pessoas a procurar hobbies novos. É importante se abrir para isso e criar essas oportunidades. E, se você for uma mulher de Jundiaí e região, o AF Clube é um espaço pronto para conhecer outras mulheres e fazer parte de uma comunidade incrível”, finaliza.

O grupo se reune sempre no último sábado do mês, no Vale Azul, Caxambu

Comentários

1 Comentários

  • Carla Froza 3 dias atrás
    Num mundo cheio de pessoas vazias, vem uma profissional como está e cria uma comunidade que cencta pessoas ... E ainda devolve saúde e bem estar... Essa mulher merece um prêmio.