"Eu comprei o terreno, aí na hora de fazer a casa não deu certo, porque todas as casas que eu achava bonita, são aquelas casas de sertão mesmo, aqueles casarões grandões de alpendre... E ninguém queria fazer essas casas no Alphaville. Querem só fazer aquelas casas quadradas, com todo respeito aos arquitetos, mas casas quadradas, sabe? Ninguém queria fazer a casa do jeito que eu quero."
Foi assim que o cantor João Gomes descreveu a tentativa frustrada de construir uma casa com alpendre em Alphaville. Isso nos chama a atenção para um tema recorrente que pretende ter um padrão de luxo os limites impostos por regulamentos internos de condomínios e padrões de estética infinitamente reproduzidos, maciçamente!
Condomínios fechados de alto padrão possuem regras bastante restritivas quanto ao tipo de construção permitido em seus lotes que podem dirigir a um padrão estético de rico que levam a uma homogeneização formal, restringindo tipos de fachada e a presença de elementos agregados, como varandas. Isso não acontece em condomínios de super ricos onde o preço do lote inicia em 7 milhões de reais.
No caso de João Gomes, a controvérsia teria surgido justamente quando o desejo de ter uma “casa do sertão” que precisa ser entendido como uma atenção ao universo do vocabulário vernacular, contra essa padronização estética muito replicada, transgredindo os códigos vigentes e optando por uma arquitetura popular, espontânea, autóctone, aquilo que os modernos e contemporâneos chamavam de arquitetura menor, mas que na verdade é um patrimônio cultural que o país tem.
É visível que essas caixas quadradas, que ele cita, são sistematicamente modelos repetidos à exaustão. E eu digo à exaustão porque já incomoda até mesmo os que, sem grana, olham para aquela farta produção e não tem como desejo repeti-las.
É um retrato vivo e documental do que está sendo deixado para as gerações. Um conjunto de projetos sem expressão que reflete às vezes o status do proprietário e que, para azar dele, acaba funcionando ao contrário, mas que sabemos que sai da repetição das ferramentas digitais, programas de computador e, mais hoje em dia, da IA. Uma sucessão de “Crtl+C, Crtl+V”, que encurta caminho para um projeto barato, de execução cara e resultado mais caro ainda.
Projeto barato deve ser entendido e verificado como um perigo para quem escolhe, com seus critérios e suas próprias razões, o lugar de sonho que pode ser uma carga para gerações!
No artigo de “Coisa de Rico!”, publicado nessa coluna em janeiro desse ano, escrevi que “identifica-se rico por uma série de signos e estratégias” e um destes signos é a arquitetura.
Do estilo Lindenberg até a essa reprodução de uma “caixa”, carimbada em milhares de terrenos em condomínios, a crítica que se faz é a essa repetição de fórmula e a falta de identidade dessa arquitetura que tenta representar um status social e que é produzida em larga escala.
Não aceitando qualquer estilo de arquitetura para manter um padrão de status, João Gomes quebra o modelo de reprodução para alimentar uma arquitetura de identidade história. Condomínios com esses cubos espremidos em seus terrenos já formam conjuntos com o mesmo padrão de cemitérios!!!! Basta olhar com um pouco de distância!
Eduardo Carlos Pereira é arquiteto e urbanista