Voltava do último dia do Tríduo Pascal, por volta de 22h, quando o enxerguei, em rua próxima de casa, um homem sentado na calçada e com roupas da cor de mariposa. A rua é escura e, em princípio, percebia-se apenas um vulto. Aliás, algumas pessoas, em situação de decadência, resultado da história triste que tiveram, desde a infância, são vistas, em um mundo rude, como assombrações, sem existência própria.
No meu coração ressoava a Palavra que ouvi nos três dias e a Eucaristia. Como a fé dá sentido à existência humana! Que seria de mim sem Deus e sua Corte Celeste?! Que seria de mim sem a Igreja em que professo a minha fé?!
Da proclamação da Páscoa naquele sábado: “...Exulte o céu, e os anjos triunfantes, / mensageiros de Deus desçam cantando; /façam soar trombetas fulgurantes, /a vitória de um rei anunciando...” Cantarolava: “... Morrendo, destruiu a morte, e ressuscitando, restitui-nos a vida...” Verdade. E o Salmo 117(118): “Dai graças ao Senhor, porque ele é bom/ Eterna é a sua misericórdia...” Como experimento essa realidade.
Carregava comigo o que ouvi durante o Tríduo Pascal, presidido pelo Padre Márcio Felipe no Santuário Diocesano Santa Rita de Cássia e me impactou o coração.
Nas tentações, Jesus mostrou que não há valor em alcançar o ápice nos cargos e poder, pois Ele, quanto à elevação, escolheu o alto da Cruz. E quanto a me impressionar, não é para os outros, mas para mim, com o propósito de que tenha um coração melhor, em sintonia com o Pai.
Na Quinta-feira Santa, a respeito de celebrar a Paixão do Senhor, no dia seguinte, o Padre Márcio Felipe nos questionou se desejávamos apenas ter emoção diante da cruz ou abraçar esse caminho que Jesus nos indicou, pois sentimentalismo não é conversão. Ainda neste dia, comentou sobre a glória do Pai se manifestar na cruz dos excluídos e que Jesus está sempre de avental para se colocar a serviço de todas as pessoas, independentemente de quem sejam. Como tenho visto a glória do Senhor nas mulheres em situação de vulnerabilidade social. Firmes na fé nos obstáculos de sua vida que são imensos. Os sonhos perdidos se transformam em esperança.
Muito forte a constatação do Sacerdote na Sexta-feira Santa: o Senhor ficou desfigurado para nos transfigurar. Não há, portanto, motivo algum para que eu diga que nisso ou naquilo não consigo me modificar, porque sou desse ou daquele jeito, que não se encontra em sintonia com a vontade de Deus. É preciso, portanto, estar sempre de avental para servir os que necessitam, como o Desfigurado, a fim de me transfigurar e levar luz aos meus convívios. Padre Márcio Felipe também indicou que um coração chagado pode se curar na chaga de Jesus. Aconteceu com Tomé, com a Samaritana, com Maria Madalena...
Carregava comigo essa riqueza toda que Jesus me proporcionara e me proporciona, com seus carinhos misericordiosos, que não poderia passar indiferente ao homem. Necessitava deter-me diante daquela silhueta apagada. Respondeu-me que estava tentando, com o fio de arame, “pescar” algo no fundo, que vira no final da tarde, e que brilhava.
Após nossa conversa, concluí que lhe cortaram o fio, que todos recebem ao nascer, ligado a uma estrela. Suas expectativas, pela brutalidade de alguns, está nas profundidades dos escoadouros.
Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista