Há algo adoecendo o ambiente político brasileiro de maneira silenciosa e persistente. Trata-se de um fenômeno que não se limita a partidos, lideranças ou ideologias específicas, mas que se infiltra nas formas de pensar, de reagir e de se relacionar com a vida pública. Essa doença se manifesta quando a política deixa de ser espaço de construção comum e passa a ser um campo de disputa permanente por atenção, por visibilidade e por adesão emocional. O debate se empobrece, a escuta desaparece e a complexidade dos problemas é substituída por narrativas simplificadas, quase sempre moldadas para provocar reações imediatas e intensas.
A lógica que sustenta esse ambiente é profundamente marcada pela necessidade de criar imagens fortes, fáceis de consumir e de compartilhar. A realidade passa a ser filtrada por versões que reforçam certezas já existentes, criando uma sensação de pertencimento que dispensa qualquer aprofundamento. Nesse cenário, a verdade perde relevância como critério de orientação enquanto a eficácia emocional se torna o principal parâmetro de sucesso. O que importa não é compreender ou esclarecer, mas apenas convencer e mobilizar. E isso vai moldando uma cultura política em que o impacto vale mais do que a consistência.
Há também uma transformação na relação entre liderança e sociedade. O espaço da representação, no mundo ideal marcado por responsabilidade e mediação, passa a ser ocupado por figuras que se apresentam como intérpretes exclusivos de um sentimento coletivo. Essas figuras se alimentam da tensão constante, porque é nela que encontram energia para se manterem relevantes. O conflito passa a ser um recurso estratégico. Quanto maior a polarização emocional, maior a capacidade de mobilização. E assim se constrói um ambiente em que a política se aproxima cada vez mais de um espetáculo contínuo.
Essa dinâmica produz efeitos profundos na vida social. A convivência se torna mais difícil, as relações se fragilizam e a confiança nas instituições se deteriora. O outro deixa de ser percebido como alguém com quem se pode dialogar e passa a ser visto como alguém a ser combatido. A linguagem se endurece, os gestos se radicalizam e a possibilidade de construir pontes vai sendo substituída por uma cultura de trincheiras. Aos poucos, instala-se uma sensação de cansaço coletivo, como se tudo estivesse sempre em estado de alerta.
A doença política que hoje se percebe no Brasil não nasce de um único fator, nem pode ser reduzida a um único grupo. Ela se alimenta de medos, de frustrações e de uma percepção difusa de perda de controle sobre a própria vida. Ao encontrar canais de expressão que amplificam essas emoções, ela ganha força e se espalha. O desafio que se impõe não é apenas institucional, mas profundamente cultural. Exige maturidade, exige responsabilidade e exige uma disposição real para reconstruir o sentido da política como serviço ao bem comum.
Sem esse esforço, o risco é que o ruído continue ocupando o lugar da reflexão, que a tensão continue substituindo o diálogo e que a política siga se afastando de sua vocação mais essencial: ser um instrumento de organização da vida em sociedade, orientado pela busca de justiça, de equilíbrio e de convivência possível entre diferentes.
Samuel Vidilli é cientista social