O fenômeno das redes sociais é um caminho sem volta. Ao mesmo tempo que elas têm o poder de encurtar distâncias, facilitar o contato e ampliar vozes, ela traz um efeito colateral perigoso para a saúde: o esfriamento das relações interpessoais. Em todas as idades, esse fato é prejudicial para a saúde mental, porém, a diminuição do convívio e da socialização para os idosos podem trazer prejuízos ainda maiores.
Para a psiquiatra e psicogeriatra Salma Rose Imanari Ribeiz, da Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), a convivência vai muito além de um simples lazer. “A socialização não deve ser vista apenas como um passatempo, mas como um fator neuroprotetor robusto”, explica. Segundo ela, interagir com outras pessoas estimula o cérebro de forma complexa, fortalecendo a chamada “reserva cognitiva”, essencial para retardar doenças neurodegenerativas. A pandemia da Covid-19 evidenciou esse impacto. “Observamos um fenômeno de aceleração, em que idosos estáveis apresentaram declínio cognitivo e emocional abrupto pela falta de convívio”.
O isolamento, segundo a especialista, atua como um verdadeiro gatilho para problemas mais graves. “O cérebro humano é um órgão social por excelência. Quando privado de estímulo, entra em um processo de privação sensorial’”, afirma. Esse cenário pode levar à depressão, aumentar os níveis de estresse e até antecipar quadros de demência. “O isolamento mata tanto quanto o tabagismo. Ele pode antecipar em anos uma doença que estaria silenciosa”, alerta.

Salma explica que a socialização regula o humor e funciona como um neuroprotetor robusto
Exemplo de vida
Histórias como a de Cesar Mendes de Carvalho, de 86 anos, mostram que envelhecer com vitalidade é possível e ligado à conexão. Mineiro, aposentado e dono de uma rotina ativa, ele começa o dia antes do nascer do sol. “Levanto cedo, faço exercício, me cuido. Sempre fui assim”, conta. Pilates, caminhadas e atividades na academia são apenas alguns dos momentos de cuidar do corpo e conversar com os amigos. Ele também encontrou na natureza uma forma de se manter conectado e já plantou mais de 400 árvores e flores em trabalho voluntário. “Também brinco com os pássaros, me comunico com a natureza”, diz.
Mas é no convívio que Cesar encontra a verdadeira felicidade. Viagens frequentes, encontros familiares e longas conversas fazem parte de sua rotina. “É muito gostoso. A gente precisa disso”, resume. Para ele, manter-se ativo é também uma filosofia de vida. “Ficar parado não presta, isso é estar ao contrário da sabedoria. A nossa utilidade no universo está em fazer ações em prol do próximo. Isso é ser feliz”, afirma.

Cesar Mendes de Carvalho pratica atividade física, cuida da natureza e se socializa
“Sentir-se pertencente a um grupo é um dos maiores preditores de vida longa”, explica Salma. Ela destaca ainda que a convivência familiar e comunitária funciona como uma rede de cuidado, capaz de identificar precocemente mudanças no comportamento e na saúde. Além disso, o contato afetivo contribui para o bem-estar físico, regulando o humor e fortalecendo o sistema imunológico.
Em Jundiaí, algumas iniciativas públicas buscam justamente reconstruir esses laços. Os Centros de Convivência da Pessoa Idosa (CCI), como os espaços Argos e Hortolândia, oferecem atividades gratuitas que vão de dança a coral, além de bailes semanais. Já o CECCO promove inclusão digital e ações de saúde, aproximando gerações e incentivando a participação social.