A percepção de ascensão social tem se tornado um dos principais fatores na forma como o eleitor brasileiro avalia governos e define seu voto. Um levantamento do G1 indica que, em pesquisas qualitativas, a população valoriza menos o aumento direto da renda e mais a capacidade do poder público de gerar uma sensação concreta de progresso, uma vez que programas sociais passaram a ser tratados como obrigação. Esse sentimento está ligado a mudanças visíveis no cotidiano.
Para o cientista social e historiador André Ramos, essa leitura passa por elementos tangíveis. “A ascensão social no Brasil é lida pelo eleitor através da estética da ação e do concreto. Assim como na segurança pública o cidadão valoriza o confronto em vez da patrulha preventiva, na política o asfalto e as obras físicas geram uma sensação de progresso muito mais palpável do que políticas de renda abstratas”, afirma. Segundo ele, a materialização das ações do governo funciona como prova de reconhecimento. “O eleitor quer ver a prova material de que o governo olhou para ele”.
Ele também aponta que programas de transferência de renda perderam impacto simbólico ao longo do tempo. “Essas políticas sofreram um esgotamento do fator novidade, tornando-se direitos adquiridos e paisagem na mente do eleitor”, explica. Em uma sociedade marcada pelo consumo e pela busca de autonomia financeira, o desejo predominante é deixar de depender do Estado. “O cidadão quer ascender à classe média para sentir-se independente e, muitas vezes, para não ter mais que admitir a importância do papel do Estado em sua trajetória”, completa.
Outro entrave relevante, segundo o especialista, é a fragilidade estrutural da educação pública. Ele destaca que o sucateamento do sistema educacional limita a mobilidade social e mantém trabalhadores em posições de baixa qualificação. “Sem conhecimento técnico e acadêmico de base, a ascensão social torna-se lenta e dependente de conjunturas externas”, diz. Esse cenário contribui para um ciclo político de curto prazo, em que investimentos estruturantes perdem espaço para ações imediatistas com maior retorno eleitoral.
Na avaliação de Felipe Pinheiro, porta-voz da Rede Sustentabilidade em Jundiaí, a ascensão social vai além da renda e exige estabilidade e oportunidade real de crescimento. “Primeiro, é importante não confundir ascensão social com ter dinheiro. Essa ascensão pressupõe uma estabilidade financeira, e neste aspecto temos muito a avançar”, afirma. Ele defende políticas públicas que ampliem oportunidades. “A sensação de subir na vida vem de políticas concretas, que garantem que o filho do trabalhador chegue à universidade e que as famílias tenham sua casa própria”. Ele também destaca avanços recentes na área tributária, embora reconheça que ainda há espaço para melhorias.
Já Fernando de Souza, presidente do Republicanos de Jundiaí, critica o que considera uma dependência excessiva de políticas assistenciais. “Grande parte da população adulta, por exemplo, recebe o Bolsa Família. Eu valorizo o programa, deve existir, mas não deve ser a base de uma política econômica do país. O trabalho deveria ser o maior projeto social”, afirma. Para ele, a ascensão social passa por responsabilidade fiscal e estímulo ao empreendedorismo. “Precisamos de um modelo com austeridade, seriedade e honestidade. O atual não fomenta o empreendedor, pelo contrário, ele afunda”, diz. Fernando também alerta para os efeitos do endividamento e da polarização política, que, segundo ele, dificultam a construção de soluções duradouras para o país.