"Liberdade, ainda que tardia."
Esse era o “slogan” da Inconfidência Mineira de 1789, lembrada (?) no feriado de ontem. Uma revolta liderada por intelectuais, filhos da elite privilegiada brasileira, que estudava na Europa e importava para o País as ideias iluministas de Rousseau e Montesquieu. A rebelião se contrapunha a alta carga tributária que impedia o desenvolvimento da então colônia Brasil. A sede da coroa Portuguesa pelo ouro extraído das “Minas Gerais” via cobrança do "quinto", 20% de imposto sobre o ouro, e a temida "Derrama", a cobrança forçada de metas fiscais não batidas.
A Inconfidência Mineira não chegou a se concretizar como revolução, mas deixou um legado que, mais do que histórico, é profundamente contemporâneo se observarmos o caráter dos comandantes das instituições brasileiras hoje. O palco mudou, mas o enredo segue familiar. Se Tiradentes, o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, vivesse hoje, possivelmente sentiria um estranho déjà vu. A insatisfação com a cobrança abusiva de impostos por parte de Portugal funcionava como combustível emocional. Atualmente, as tensões sociais encontram novos gatilhos como desigualdade, desinformação, crises institucionais, assim como impostos inesperados.
Os inconfidentes divulgavam os ideais revolucionários a boca pequena, nas sacristias das igrejas, em reuniões fechadas. Tiradentes foi figura central do movimento e principal propagandista. Era alferes (patente militar) e também atuava como dentista. Diferentemente de seus pares, tinha origem humilde. Após a traição de um dos envolvidos, foi preso, julgado e condenado. Em 1792, foi o único a ser executado e esquartejado. Posteriormente, se tornou símbolo da luta pela independência e herói nacional.
Se no século XVIII o risco era ser traído por um delator, hoje ele se manifesta de outras formas como vazamentos, cancelamentos, distorções e narrativas. Ideias transformam contextos, mas sem alinhamento estratégico e execução coordenada, os movimentos se fragilizam. No mundo digital, essa fragmentação se intensifica. Todos opinam, poucos constroem. A Inconfidência Mineira não teve uma liderança estruturada, capaz de alinhar discurso, estratégia e execução. No Brasil contemporâneo tropeçamos nos mesmos desafios estruturais passando pelo alinhamento, confiança e capacidade de transformar ideias em ação concreta.
A carga tributária brasileira permanece como um fantasma colonial. Se outrora a revolta era contra o imposto sobre o metal físico, hoje a discussão gira em torno da tributação do consumo digital e da complexidade de um sistema que, embora automatizado, ainda drena a capacidade de inovação do empreendedor. O "espírito de Tiradentes" no século XXI não estaria apenas na negação do imposto, mas na exigência de contrapartida. Os inconfidentes queriam uma Universidade em Vila Rica e fábricas em solo mineiro. No Brasil digital, esse ideal se traduz em infraestrutura tecnológica, inclusão digital e educação voltada para a economia do conhecimento.
Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação