Olho, embasbacada, os políticos no TikTok. Valha-me Deus! São tantas promessas fáceis, tantos feitos, que fico pensando mesmo se os brasileiros caem naquela lorota. Uns se utilizam bem da plataforma, outros nitidamente estão ali por mando do marketeiro político. Eu sei bem que sou chata e rigorosa, mas veja se você não tem orçamento na sua casa, você não consegue trocar sua televisão, não é mesmo? A não ser que se endivide, em mil prestações. Até que um dia você quer trocar também seu carro, comprar uma moto e percebe que não tem mais crédito. É mais ou menos isso que está acontecendo com os municípios brasileiros. Estão superendividados, muitos deles chegando a 100% da receita comprometida com dívidas. O país, então, está praticamente paralisado por conta da dívida pública.
Na verdade, nenhum político quer falar sobre isso, mas o gasto com o funcionalismo público está comendo nossos investimentos. E ele só cresce. Mesmo com as mais modernas práticas de gestão, uso de Inteligência Artificial, mudanças que chegam diariamente na forma como se gerencia recursos, continuamos na idade da carroça na gestão pública.
Eu atribuo isso a duas coisas: primeiro, a dificuldade da gestão pública em adquirir conhecimento, de se atualizar e de atualizar suas ferramentas tecnológicas. A outra, bem triste, é que não se atualizando, não se utilizando de novas tecnologias, startups e gestão mais eficiente, o sistema fica bem mais fácil de ser burlado. E isso interessa a quem mesmo? Aos políticos ou à população?
O sistema burocrático brasileiro chegou com os portugueses, ainda na colonização. E vamos combinar que Portugal é o que é, atualmente. A burocracia, a má administração, a incompetência servem ao status quo brasileiro. Mas, voltando ao TikTok, a gente devia fazer uma corrente e perguntar: como o senhor vai custear tudo isso? É lindo apresentar alternativas maquiantes a problemas estruturais. Quer ver um exemplo? Todos nós sabemos que precisamos ter um centro de atendimento público ao autismo, mas a pergunta que devemos fazer é: construindo-se a estrutura, como vamos pagar a manutenção? Com quais recursos? Se não há recurso novo, onde é que deixaremos de investir?
Gestão pública é eleger prioridades. O tratamento de câncer é prioridade, as doenças epidemiológicas também. Mas, se gastamos no tratamento que é caro e urgente, onde não teremos recursos? Porque, ao contrário da mágica das redes sociais, o dinheiro - num país pobre como o nosso, que perde 40% de seu PIB na corrupção - é finito. E ele vem, na maioria das vezes, sem correção monetária e sem correção adequada dos tratamentos realizados nos municípios. Quem banca a diferença? Nós, que moramos nas cidades.
Neste pacto federativo torto, o município paga contas que nem deveriam ser dele. Com outro fenômeno impressionante que sempre se avizinha, ao depararmos com serviços públicos deficitários, caímos na rede privada. E eu não conheço ninguém que está plenamente feliz com seu plano de saúde privado. Outro dia me chamou a atenção uma propaganda de uma empresa de segurança privada. Eles diziam mais ou menos assim: “Se alguém invadir sua casa, ligamos para a polícia.” Ora, se eu preciso esperar a polícia, por que preciso de segurança privada? Entendem o dilema?
Estamos privatizando mal o que deveria ser do Estado: educação, saúde e segurança. Insatisfeitos com essa privatização torta, também não temos abrigo no sistema público. Pagamos duplamente, sem que tenhamos garantia de nada.
E aí você vai acreditar em trend do TikTok? Se liga, se a gente não exigir mudanças, nossos filhos terão que migrar de país para ter uma mínima sensação de segurança e futuro.
O pior cego é aquele que não quer ver. E isto o brasileiro sabe bem. Vota no salvador da pátria do momento, sem se preocupar com os conhecimentos técnicos de gestão do referido candidato. E aí a gente fica a ver navios. Teremos uma fantasia de TikTok, enquanto as cidades ficam esburacadas, com hospitais lotados, sem rumo econômico-financeiro, máquina pública inchada e cidadãos a esperar o próximo Sebastião. Esse que nos levará ao reino encantado apregoado na sua rede social predileta. Mas vou deixar um spoiller: o mundo da fantasia não reelege ninguém.
Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ