OPINIÃO

Pensar grande


| Tempo de leitura: 3 min

Há pessoas que nascem com a vocação de farol. Sinalizam ao mundo o que este poderia ser, houvesse mais pessoas que deixassem de pensar exclusivamente em si mesmas, para pensar grande. Pensar como gigantes.

Quem nasceu com esse dom foi o casal Lélia Deluiz Wanick e Sebastião Salgado. Este mago da fotografia, que documentou o esplendor e a miséria do ambiente brasileiro, completaria oitenta e três anos no próximo dia 23 de maio. Faleceu em 2025. Mas antes disso e de encantar o planeta com sua arte, ousou. Adquiriu, das sete irmãs, o total de terras de uma fazenda familiar em Aimorés, Minas Gerais. Ele, por herança, já era detentor de um oitavo da propriedade.

Quando contou ao pai o seu plano de reflorestá-la, recebeu a resposta direta:  “Você vai construir um cemitério de dólares!”. Pois parecia impossível deixar de explorar o gado e regenerar a terra, convertendo-a em área coberta de árvores.

Mas o casal enfrentou as vicissitudes e desde 1998, conseguiu restaurar mais de dois mil e trezentos hectares de Mata Atlântica, com quase quatro milhões de árvores plantadas, o que fez reaparecer a nativa fauna da região.

Não contente, criou projetos de educação ambiental com programas que formam jovens profissionais e despertam o amor pela natureza desde a infância. A iniciativa foi institucionalidade: é o Instituto Terra, internacionalmente reconhecido.

Atua em vários eixos. Na educação ambiental, há três programas: “Terrinhas”, para trabalhar com crianças de escolas públicas. Duas vezes por semana, durante um ano, participam de oficinas com treinamento prático e disseminação de conhecimento sobre o cultivo, a botânica, o que é nativo daquela parte de Minas. Também treinam para a restauração ecossistêmica, têm escola de agricultura, com verdadeiro internato durante um ano, para treinar desde a coleta de semente até o plantio e a manutenção das mudas.

O projeto “Terra Jovem” produz vídeos ligados à preservação ambiental. São obras realizadas pelos próprios jovens, com a linguagem deles, para motivar em escala a mocidade brasileira, a cuidar do que é dela e que é o maior patrimônio, garantidor da continuidade da vida.

A seriedade do trabalho de Lélia e Sebastião Salgado foi reconhecida pela empresa Zurich Seguros, que patrocina parte da empreitada e pela organização KFW, Banco de Desenvolvimento Alemão.

O Instituto Terra também mantém viveiros com capacidade produtiva de quinhentas mil mudas anuais e está ampliando as instalações para que passem a produzir um milhão e, em seguida, dois milhões de novas espécies arbóreas, destinadas a reflorestar um Brasil que continua a ser degradado.

Inúmeros outros trabalhos são desenvolvidos em razão da semente lançada com carinho pelo casal. O projeto “Olhos d’água”, por exemplo, cuida da restauração de nascentes. Mais de duas mil e quatrocentas já foram recuperadas. Desenvolvimento de sistemas agroflorestais é outra estratégia, para favorecer principalmente os pequenos agricultores. O Instituto ensina a fazer barragens, o uso de biodigestores, cultivar agricultura orgânica, coordenar o trabalho rural familiar.

O Instituto Terra é o testemunho vivo de que a generosidade gera efeitos concretos e que a natureza é generosa, retribui em décuplo o que se investe nela. Exemplo para tanta gente que deixa fortuna só para que os herdeiros se digladiem e façam a festa dos advogados. Vale a pena conhecer o Instituto Terra, onde se é bem recebido por seu coordenador Sérgio Rangel e pela head de desenvolvimento institucional Carolina Sampaio, além da responsável pela captação de recursos que é Karina Mendes.

Isso deveria ser feito em Jundiaí, pois a Serra do Japi precisa ser protegida com a ampliação de áreas contíguas, que podem ser RPPN – Reservas Particulares de Proteção Natural, se houver de fato generosidade dos titulares dominiais dessas terras.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

Comentários

Comentários