OPINIÃO

Um sentido da vida


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Circula pelas redes um vídeo curto que, com poucos segundos, entrega uma lição inteira de convivência humana. Um homem pergunta ao seu “mestre”, um gato de expressão impassível, qual seria o sentido da vida. A resposta vem sem rodeios: não discutir com imbecis. O homem, naturalmente, discorda. O gato, então, conclui com uma serenidade desconcertante: “ok, você tem razão”.

Fim da cena.

Fim da discussão.

Uma economia existencial feita em tempo recorde.

Talvez seja exatamente isso que esteja em falta no nosso tempo: a arte refinada de ficar quieto. Em uma época em que todo mundo tem opinião sobre tudo e, mais do que isso, sente uma necessidade quase fisiológica de expressá-la, o silêncio virou uma habilidade rara, quase exótica. Há quem entre em debates como quem disputa uma maratona, já aquecido, preparado para percorrer quilômetros de argumentos, réplicas, tréplicas e, se possível, sair carregando a medalha dourada da razão absoluta.

A experiência cotidiana, no entanto, vai ensinando que nem toda conversa precisa virar disputa. Há situações que pedem apenas um aceno de cabeça, ou um sorriso educado seguido de uma elegante retirada estratégica. Existe uma sabedoria muito concreta em perceber quando a conversa deixou de ser encontro e passou a mera insistência. Nesses momentos, o silêncio se torna verdadeira presença de espírito.

Tenho um amigo que amo profundamente. Trata-se de uma daquelas amizades que atravessam o tempo, resistem às fases da vida e sobrevivem até às conversas mais perigosas. Mas ele tem uma qualidade curiosa: precisa ter razão em absolutamente tudo. E não é um desejo eventual, mas algo como uma vocação. Diante disso, desenvolvi uma técnica que considero altamente eficaz para a manutenção da paz: eu deixo.

Ele precisa disso.

Eu, sinceramente, não.

Mas, sendo honesto, é claro que a teoria funciona melhor do que a prática. Minha generosidade infelizmente tem limites bastante humanos. Antes de conceder a vitória a esse meu amigo, costumo exercitar um certo grau de provocação, apenas para não perder o hábito. Uma pequena argumentação aqui, uma insistência ali, um leve teste de paciência que, confesso, me diverte mais do que deveria. Depois disso, com a consciência relativamente tranquila, retiro-me da batalha e entrego o troféu.

Ele vence.

Eu sobrevivo.

No fundo, essa dinâmica revela algo importante: viver bem não passa por ganhar todas as discussões. Longe disso. O lance é discernir sobre quais discussões simplesmente não merecem existir. A paz interior, esse bem tão desejado e raro, costuma estar mais próxima de um “ok, você tem razão” dito no momento certo do que de um discurso impecável que ninguém está disposto a ouvir.

Talvez o gato do vídeo esteja mais avançado do que todos nós. Ele entendeu que, em muitos casos, a verdadeira inteligência consiste em encerrar o assunto antes que ele comece.
Uma discussão a menos, no fim do dia, pode ser exatamente o que salva o restante da vida.

Samuel Vidilli é cientista social

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