OPINIÃO

Precisamos encarar o celular


| Tempo de leitura: 3 min

Eu havia acabado de dar uma aula de filosofia no qual o tema versava sobre a importância da verdade. Tema importante para alunos do Ensino Fundamental II. No final da aula, um aluno que não deveria ter nem 12 anos, veio me falar, meio indignado, sobre um vídeo que havia assistido sobre o presidente Lula dizendo que não gostava de evangélicos.

“E onde você viu esse vídeo?”, perguntei provocativo. “Minha mãe me mostrou, sor. Era um vídeo de IA (Inteligência Artificial)”. Nessa hora, imaginei que ele estava me contando aquilo para exemplificar como a mentira está presente na internet. Ledo engano. O aluno, mesmo sabendo que o vídeo era falso, continuava acreditando em seu conteúdo.

Eu não soube o que dizer. O sinal me salvou de ter que aprofundar o assunto com o aluno com o risco de ser chamado, no final, de doutrinador. Fiquei pensando um bocado de coisas enquanto arrumava meu material para ir para a outra turma.

No corredor da escola, eu pensava no que poderia ter dito: “Converse com seus pais quando você ver um vídeo desses na internet”, mas foi a própria mãe quem mostrou o conteúdo para ele. O que me levou à urgência de outro pensamento macabro, o de que não temos mais - sejamos adultos ou crianças - condições de distinguir a verdade da mentira na internet. Cheguei na outra turma com uma dose de intenso desânimo.

Já faz mais de um ano desde que a lei que proíbe o uso de celulares na escola entrou em vigor. Com a  Lei Federal nº 15.100/2025, os alunos não usam o celular no colégio, mas continuam usando ele em casa e ficando expostos dentro do próprio lar.

Há sete meses (em agosto de 2025), o youtuber Felca divulgou um vídeo que denunciava a adultização de crianças e adolescentes na internet, expondo o quanto nossos jovens estavam em perigo com o celular nas mãos e sem nenhum tipo de supervisão. A repercussão foi tão grande que a pressão sobre as Big Techs criarem mecanismos de proteção de crianças e adolescentes nas redes sociais culminou em uma nova lei que passou a vigorar no último dia 17.

O ECA Digital, ou “Lei Felca” (Lei 15.211/2025), atualiza o Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente online, impondo verificação rígida de idade, proibindo "rolagem infinita" e loot boxes (itens virtuais consumíveis em jogos eletrônicos) para menores, além de restringir publicidade direcionada e proteger dados.

A Lei Felca é um passo significativo na proteção de vulneráveis no ciberespaço, é verdade. Mas não resolve em absoluto um problema que é praticamente sistêmico: os jovens não sabem usar a internet de forma saudável. Isso inclui a auto-exposição, a não distinção de fake news e a prática de ciberbullying. E eles não sabem porque não há ninguém ensinando.

Eu acredito que a escola precisa assumir esse papel. Falando como um educador, se não ensinarmos os jovens a utilizarem o celular, quem vai ensinar? Os pais? Duvido muito, pois os pais também não sabem. Segundo pesquisa divulgada em outubro de 2023 pela Agência Brasil, são das mãos dos adultos entre 35 a 44 anos que circulam a grande maioria de notícias falsas que vemos por aí. E também são os adultos que consomem e expõem conteúdos de crianças e adolescentes, como divulgado pelo Felca no ano passado.

Criar em sua grade curricular espaço para que haja aulas de letramento e educação midiática. Melhor ainda, as escolas precisam abrir suas portas para projetos educomunicativos que, por sua vez,  têm condições de ensinar os jovens a serem protagonistas e a caminharem pelas vias seguras do ciberespaço. Eu tenho total convicção que se assim fosse, eu saberia exatamente como orientar o meu aluno e ele saberia exatamente o que fazer em casa. Conhecimento é conquista.

Felipe Schadt é jornalista, professor e cientista da comunicação

Comentários

Comentários