OPINIÃO

Narcisismo: vilão ou mocinho?


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Caro leitor, o narcisismo é uma palavra que se popularizou a ponto de, hoje, ser usada quase como sinônimo de egoísmo ou vaidade excessiva. No entanto, seu significado é mais complexo e, em certa medida, mais desconfortável. Em uma época marcada pela exposição constante, pela busca por validação e pela construção de identidades públicas nas redes sociais, falar de narcisismo é, também, falar de todos nós.          

Na psicologia, o narcisismo não é, por si só, um problema. Existe um nível considerado saudável, necessário para a construção da autoestima e da confiança. É ele que permite ao indivíduo reconhecer seu próprio valor, estabelecer limites e buscar realizações. O problema começa quando essa medida se desregula e o olhar para si se torna absoluto, excluindo o outro.                                                

O narcisista, em sua forma mais extrema, não é apenas alguém que se admira. É alguém que depende dessa admiração. Sua autoestima não é sólida, mas frágil, sustentada por reconhecimento externo constante. Por isso, críticas são frequentemente vividas como ataques pessoais, e relações interpessoais tendem a se tornar superficiais ou utilitárias. O outro deixa de ser um sujeito e passa a ser um espelho.          

Caro leitor, mas talvez o aspecto mais intrigante do narcisismo contemporâneo seja seu caráter coletivo. Vivemos em uma cultura que estimula a autopromoção, a performance constante e a comparação contínua. Curtidas, seguidores e visualizações transformaram-se em métricas de valor simbólico. Nesse cenário, a linha entre expressão pessoal e construção de uma persona idealizada torna-se cada vez mais tênue.    

Isso não significa que todos tenham desenvolvido um transtorno de personalidade, mas indica que certos traços narcísicos estão sendo reforçados socialmente. A necessidade de parecer bem-sucedido, feliz e admirável pode gerar ansiedade, frustração e um sentimento persistente de inadequação — paradoxalmente, mesmo em meio à exposição.  

Falar de narcisismo, portanto, exige cuidado  para não cair em simplificações. Nem todo comportamento autocentrado é patológico, assim como nem toda busca por econhecimento é vazia. O desafio está em encontrar equilíbrio: cultivar o amor-próprio sem perder a capacidade de empatia, de escuta e de conexão genuína.    

Caro leitor, talvez a pergunta mais importante não seja quem é narcisista, mas “como estamos nos relacionando com nós mesmos e com os outros?”. Em um mundo que constantemente nos convida a olhar para dentro — e a mostrar esse interior —, preservar a alteridade pode ser um dos atos mais necessários e, ao mesmo tempo, mais difíceis da atualidade. Pense nisso.

Micéia Lima Izidoro, Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional, Neuropsicopedagoga Clínica, pós-graduada em ABA e estudante de  Neuropsicanálise

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