OPINIÃO

Árvore é política pública


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A desmemória humana é cruel. Faz com que a criatura que se considera a única provida de racionalidade dentre as espécies animais, desconsidere a natureza da qual faz parte. Não há outra explicação para a anacrônica forma de ocupação do solo, que não deixa nenhum espaço drenante e subtrai o verde, quando deveria privilegiá-lo.

Nossas cidades são o retrato de nossa indigência ecológica. Tudo asfalto, tudo concreto, tudo ferro e aço. Espaços impermeáveis, que só servem a sua majestade o automóvel. As pessoas que se virem...

É triste verificar que a destinação de glebas enormes para condomínios de classe, se faça de forma insensata. As construções praticamente esbarram umas nas outras e não sobre lugar para a faixa verde, saudável, fonte de energia e de vida, que só valorizaria o empreendimento.

Jundiaí é uma terra privilegiada. Sem mérito algum, tem a Serra do Japi, cujo aproveitamento imobiliário é chamariz, mas que se vê continuamente ameaçada. O seu entorno precisa ser preservado. É dever do Poder Público Municipal ampliar a área expropriada e destinada a perene reserva natural.

Nossos rios já foram piscosos. Em lugar de soluções baseadas na natureza, insiste-se na canalização, no enterramento de córregos, tudo para servir à especulação imobiliária. Eliminam-se as pontes entre passado e presente. Qual é a cobertura arbórea da área densificada? A ciência recomenda que se destine ao verde, pelo menos, 40% do território.

A ausência de árvores tornou o centro um espaço feio. Morto à noite. Sem vida e sem participação cidadã. E ele já foi atraente, sedutor, charmoso. O que isso significa? Desamor à cidade? Será que ela não tem mais jundiaienses que queiram torná-la cheia de flores, de arrebóis e de filhos amantes?

É urgente combater a destinação desértica das áreas adensadas. Não mais impermeabilização. Reconquista de espaços para pequenos bosques, florestas urbanas, ilhas ou jardins de chuva, por que não vagas verdes? Sim, tirar uma área de estacionamento desse veículo tão egoísta que é o automóvel e devolvê-la à natureza.

A vegetação urbana precisa ser encarada como política pública séria e consequente. Arborização é infraestrutura urbana. Merece o mesmo tratamento que a água recebe. Uma criança que cresce numa rua sem árvores não vai ser cidadã zelosa das espécies arbóreas que restarem.

É também uma questão de saúde pública. Árvore reduz a temperatura e as ondas de calor matam mais do que as ondas de frio. A educação ecológica precisa ser mais assertiva. Contemplar não só as crianças, mas também seus pais e comover os urbanistas, os arquitetos, os engenheiros. Chega de mesmice padronizadora dos centros urbanos que se parecem todos com a mediocridade do comércio feio, sem estética, sem respeito pela ecologia. Exigir que as construções contemplem a necessidade de áreas verdes.

Isso mostra como o ambientalismo antropocêntrico não deu certo. Vamos colocar a árvore como ponto de partida. E repensar a nossa relação com a cidade e com a vida. Antes que seja tarde. Estes complexos de concreto funcionam como estufas mortais, esta impermeabilização nefasta, abrevia a vida humana. Paradoxo perverso, quando a ciência médica possibilitou uma longevidade insólita. Mas merecemos isso, se continuarmos a ignorar nossas fragilidades e a desprezar nossa amiga natureza. E a desconsiderar nossa maior aliada, a árvore.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

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