OPINIÃO

A crise do corpo sedentário ativo


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Nunca tivemos tantas pessoas praticando atividade física e, ao mesmo tempo, nunca vimos tantos corpos cansados, rígidos e com dor. Pode parecer contraditório, mas não é. Estamos vivendo um fenômeno cada vez mais comum: o do corpo sedentário ativo.

São pessoas que treinam uma hora por dia, frequentam academias, fazem aulas, correm, pedalam, mas passam o restante do tempo sentadas. Trabalham horas diante do computador, , estressadas, dirigem, usam o celular, descansam no sofá, muitas vezes vendo TV e o celular, ou seja, concentram o movimento em um único momento do dia e permanecem em longos períodos de imobilidade no restante dele.

O problema é que o nosso corpo não foi feito para funcionar assim.

O organismo humano precisa de movimento frequente, distribuído ao longo do dia. Não apenas de intensidade, mas de constância. Quando passamos muitas horas parados, mesmo que tenhamos treinado pela manhã, o corpo entra em um estado de adaptação que reduz a circulação, diminui a variabilidade do sistema nervoso e altera o funcionamento metabólico.

A fáscia, esse tecido que conecta todo o corpo, também sofre. Ela depende de movimento regular para se manter hidratada, elástica e funcional. Longos períodos de inatividade tornam esse tecido mais denso, menos deslizante e mais propenso a gerar desconforto e limitação de movimento, pois ela tem o poder de limitar massas articulações, limitar nosso movimento. É como se o corpo deixasse de ser fluido e passasse a funcionar com mais rigidez.

Por isso, muitas vezes, não é a falta de treino que está causando dor, mas o excesso de tempo parado.

Existe uma crença comum de que uma boa sessão de exercício compensa um dia inteiro de inatividade, mas o corpo não funciona por compensação. Ele funciona por estímulo contínuo. Uma hora de treino não desfaz um dia inteiro de imobilidade, muitas vezes acompanhado de sobrecargas das mais variadas formas.

Isso não significa que o treino não seja importante, muito pelo contrário. Ele é fundamental. Mas ele não substitui o movimento do dia a dia. Precisamos resgatar o hábito de nos movimentar mais ao longo das horas. Levantar, caminhar, mudar de posição, alongar, respirar melhor, explorar diferentes direções de movimento.

Pequenos gestos, repetidos com frequência, têm um impacto profundo na saúde do corpo.

Esse conceito tem até nome: movimento distribuído. É a ideia de que o corpo precisa ser estimulado diversas vezes ao longo do dia, com variações de postura e intensidade. Não é só sobre treinar bem, mas sobre viver em movimento.

Quando entendemos isso, mudamos a forma como enxergamos o cuidado com o corpo. Saímos da lógica do treino isolado e entramos na lógica do corpo em constante atividade. Isso melhora não só a mobilidade e reduz dores, mas também impacta a energia, a concentração, o humor e a saúde metabólica.

No fundo, o que o corpo pede é simples: movimento como parte da vida e não como um evento isolado.
Talvez a pergunta mais importante não seja se você treinou hoje, mas quanto você se movimentou ao longo do seu dia.

Muita saúde a todos.

Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo, pioneira do método ELDOA no Brasil

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