OPINIÃO

Lições da Vó Thereza sobre ressonância


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Para os olhos de um menino de uns oito anos de idade, minha avó Thereza era uma pessoa um tanto obscura, quieta e desconfiada. Claro, isso não quer dizer que ela, de fato, fosse assim ou que fosse inteiramente desta maneira. Eu a descrevo com a mente imatura e infantil que dispunha na época, só isso.

Reservada, não era em nada o estereótipo da avó fofa e carinhosa que aperta, beija e abraça, nem mesmo consigo me imaginar nesta situação com ela. Bem, devo dizer que isso me causou alguma estranheza, mas agora, mais velho, eu arrogo em dizer que a entendo melhor (só o tanto que um neto consegue “entender” a sua avó, o que não é muito, convenhamos!).

A vida lhe foi generosa, com família e filhos saudáveis, mas veio embrulhada em uma “embalagem” de dor, com uma morte precoce do marido e uma viuvez inesperada, além das dificuldades de seguir na vida depois disso, tanto com o corpo (ela tinha artroses severas) e com a mente (um humor depressivo).

Não se enganem, ela também foi generosa comigo, naquilo que considerava muito importante em me ensinar. Lembro-me, por exemplo, do seu comentário diante de um desafio que me desse o receio de enfrentar: “Cão mordido por cobra, tem medo de linguiça!”.

Um tom jocoso, divertido, mas com uma mensagem importante que utilizo ainda todos os dias no meu consultório: o trauma de experiências passadas pode ser uma influência tão grande na nossa vida que modifica nosso comportamento, nossa fisiologia e mesmo nossa mente de forma involuntária e decisiva.

Com toda a sabedoria que somente uma avó pode ter, ela me explicava a ressonância que ocorre em cada uma das nossas células de maneira simples e quase intuitiva, para que coubesse naquele momento mesmo, na minha cabecinha imatura. A experiência desagradável de “quase-morte” que o corajoso bichinho do exemplo passou lhe rendeu cicatrizes que vão além das físicas: sua psiquê está definitivamente moldada ao perigo existente em qualquer objeto que lembre o formato do “mensageiro da morte”, mesmo que seja uma suculenta linguiça.

Qualquer indício na sua percepção desta forma ameaçadora irá ressoar e fazer com que a suprarrenal ejete adrenalina na corrente sanguínea para aumentar a pressão, eriçar os pelos e (certamente) colocar o rabo entre as pernas. Outras glândulas também responderão, bem como músculos que ficarão contraídos, tendões que armazenarão tensões e vias aéreas dilatadas para farejar o perigo.

Sem o cuidado adequado para que esse ciclo se quebre, pode-se formar até mesmo “uma construção psíquica” – que se fosse em um humano, poderia se chamar de persona – gerando ansiedade desmedida, tendência controladora (que se tratava de medo da repetição do fato de forma inesperada) e, provavelmente, levaria o coitado do cachorro ao adoecimento.

Claro, não acho que cães se comportem de modo tão semelhante a humanos, reagindo aos traumas de forma psicobiológica, mas compreendi bem a ideia da minha avó Thereza na sua analogia, lembrando-me que a consequência mais perene do trauma seja a dificuldade em viver a vida que existe adiante.
 ... E com avó, a gente não discute.

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina chinesa e osteopatia

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