Conheci a moça ao sair da adolescência. Cheia de entusiasmo e sonhos. Morava distante do centro da cidade. Usava as redes sociais e, como inúmeras, de sua idade, existiam as vontades de uma série de coisas que somente o dinheiro compra. E não é preciso dizer da falta de oportunidades iguais à pessoas. Ofereceram-lhe uma possibilidade com sigilo absoluto. Considerou que “guardar” o ilícito não seria tão grave e lhe permitiria comprar algumas coisas que sonhava, desde tênis de marca a celular.
A polícia puxou o fio da meada no Vale do Paraíba. Ela se encontrava no “fio”. E mais outros. Ficaram detidos por quatro meses. Naquela época, eu fazia parte da Equipe da Pastoral Carcerária e visitava o cadeião do Anhangabaú e a cadeia feminina de Itupeva. Estava com ela uma vez por semana. Muito atenta sempre, de sorriso bonito, com muitos planos ao sair, nenhum deles ligado ao ilícito. Considerava falta de discernimento ter aderido à “prestação de serviço”. O que adquirira não tinha mais valor algum. Iludida por ela mesma e pelo mundo. Uma espécie de cegueira.
Lembrei-me do que disse o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, Reitor do Santuário Diocesano Santa Rita de Cássia, sobre o Evangelho em que Jesus cura um cego de nascença. Colocou que ninguém recupera o que não tem. No caso de cego, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a em seus olhos. Em seguida disse que fosse se lavar na piscina de Siloé. O cego foi, lavou-se e voltou enxergando. Ou seja, o cego cumpriu o que lhe dissera o Senhor e conseguiu o que não possuía: a visão.
Ao sair da cadeia, veio me ver. Conversamos sobre seu futuro com tanto ainda para viver. Com o susto, fortaleceu-se de olhos abertos no bem. Dezesseis anos são passados. Nesses anos fez faculdade na área de Logística, trabalhou, casou-se com um moço fantástico e tem uma filha que é um encanto de gente.
Repito: dezesseis anos são passados na vida de uma moça que tropeçou, cuidou dos machucados e se reconstruiu. Fez-se exemplo de resistência.
O processo andou em meio a recursos. Chegou a sentença há uns 20 dias: 10 anos, sendo os quatro primeiros no regime fechado. O carro policial chegou logo e a levou à Penitenciária Feminina.
Confesso-lhes que fiquei chocada. Dezesseis anos nos quais se reergueu, que podem ser comprovados e é agora retirada do convívio familiar. E o impacto para a filha criança, além do marido e os familiares dela que comprovam sua conduta? E o impacto para ela que não possui mais contato algum com o ilícito?
Não entendo de leis, mas sei um pouco de dores da humanidade. Já que precisava cumprir pena, após 16 anos de vida restaurada, não caberia prisão domiciliar com tornezeleira eletrônica? Não caberia prestar serviço uma entidade assistencial? Já li sobre tanta gente do “topo”, em situações que prejudicaram o povo, com penas irrelevantes... Não me conformo.
Se tratada com a justiça dos que se encontram no “topo”, seria um exemplo de que reedificar a vida vale a pena. Quando a filha chorar de saudade da mãe que está distante, por vontade de terceiros, que para alguns usam de clemência e para outros da lei petrificada, o Céu chorará com ela.
Maria Cristina Castilho de Andrade
Professora e cronista