Pela rua Senador, no número 914, saia cedo pra pegar o Cometa para São Paulo na praça Governador Pedro de Toledo. Não era uma saída qualquer, era especial. Uma jovem atraente mulher, com batom vermelho, decotes pronunciados, cabelos pretos e saias na altura do que poderia ser provocante. Era 1957 e já causava um show ao passar na outra calçada do barbeiro, Sr. Camilo que parava o que estava fazendo, de cortar meu cabelo e, como todos que estavam lá, comentava a beleza da Irede.
Sempre foi assim! Estudante da FFLCH– Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo-, Irede saía da cidade provinciana vestida de paulistana, como a estudante moderna da filosofia. Claro que não era o usual aqui! Foi assim por todos os anos até sua formação de curso, mas já com todas as suas convicções confirmadas durante a faculdade.
Casada com um médico, passa a dar aulas no cursinho Equipe em São Paulo junto com amigos da faculdade, que incluíam a Nilce Cardoso, esposa do Geraldo Vandré, e muitas amigas e amigos célebres, que se tratavam com absoluta informalidade, mas com fortes narrativas e convicções políticas. Essa preparação de alunos para entrar na universidade tinha nela uma alavanca poderosa de formação crítica e preparação de potentes conteúdos para enfrentar vestibulares com sucesso.
Com a transferência do marido para o Hospital do Sesi em Jundiaí, esse ambiente cosmopolita sucumbe, Irede fica completamente descolada da província. Mergulha de cabeça na vida doméstica e como bandeira da sua insatisfação e da crítica da condição da mulher reclamava aos quatro ventos. Esse foi o panorama doméstico que entendia como um castigo.
Inconformada de não poder dar aulas em São Paulo, faz um cursinho no fundo da casa na Praça da Bandeira, que muita gente migrou pra lá como Marcos Queiroz, Mano de Souza, Picoco, e outros estudantes que se preparavam para entrar na psicologia da USP e PUC SP. Ninguém saía igual, mas passavam no vestibular.
Sua vida pessoal evolui para uma situação insuportável. Rompe com o marido e vai pra São Paulo em 1967. Lá se instala e imediatamente passa a trabalhar na Editora Abril, no DEDOC – Departamento de Documentação- da Revista Veja, junto com seus colegas do meio acadêmico como Roberto Pompeu de Toledo, Cláudio Abramo e Mino Carta. Irede participou de debates críticos sobre democracia, educação e sociedade que marcaram o panorama do país sob ditadura militar.
Irede trabalhou na Folha de S.Paulo principalmente entre o fim dos anos 1960 e os anos 1970. Lá ela atuou como repórter, editora e colunista. Pioneiramente inaugura sua coluna feminista que permanece sendo publicada por toda a década.
Nos anos 1970 e 1980, feminista brasileira e pioneira—lecionou Ciências da Comunicação na Universidade Mackenzie.
Foi editora do TV Mulher (1980-1986), na Rede Globo, entre outras coisas chamou Marta Suplicy para falar sobre sexo, aliás, frequentemente era esclarecido e discutido no programa. No início dos anos 1980, no PT, Irede entrou no partido com entusiasmo. E foi eleita vereadora da cidade de São Paulo em 1982. Seu slogan foi “Um beijo da Irede”. Foi reeleita em 1986.
Em 1985, vai até Michel Temer, então Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, e levanta a necessidade de fazer uma delegacia exclusiva para mulher. Sensível ao tema, foi com êxito teve desdobramentos e hoje são 142 DDM’s– Delegacia da Defesa da Mulher. E não foi suficiente. Irede morreu em dezembro de 2000 velada na câmara de vereadores de São Paulo e sepultada em Jundiaí, imediatamente esquecida desde então!!! Sua história de resistência durante toda a ditadura permanece incógnita.
Eduardo Carlos Pereira é arquiteto e urbanista, primo da Irede