O debate sobre a modernização da jornada de trabalho no Brasil é legítimo e, acima de tudo, necessário. Quando discutimos a escala 6x1, estamos tratando do cotidiano de milhões de brasileiros e do futuro da nossa estrutura produtiva. O objetivo social é claro e compartilhado por todos: promover saúde, bem-estar e qualidade de vida. No entanto, para que essa conquista seja sustentável, precisamos colocar no centro da mesa os impactos na competitividade e, principalmente, o combate à precarização do trabalho. É fundamental que a evolução das relações laborais caminhe de mãos dadas com a viabilidade econômica que sustenta o sustento das famílias.
Recentemente, o Ciesp uniu-se a outras 111 entidades do setor produtivo, totalizando 112 assinaturas de peso, em um manifesto conjunto. Essa união não representa um movimento de resistência cega à mudança, mas um alerta técnico e social para que qualquer transição seja feita com responsabilidade. O emprego formal é o maior ativo social de um país.
É ele que garante ao trabalhador o acesso à Previdência, ao FGTS, ao seguro-desemprego e à proteção em momentos de vulnerabilidade. Segundo dados de 2025, o Brasil alcançou um estoque robusto de vínculos celetistas, e proteger esse contingente deve ser nossa prioridade absoluta em qualquer reforma.
Uma mudança abrupta e sem o devido estudo de viabilidade por setores específicos pode gerar um efeito reverso ao desejado: o empurramento de trabalhadores para a informalidade ou para regimes de "gig economy", onde não há direitos, férias remuneradas ou segurança jurídica. Modernizar a jornada não significa escolher entre a qualidade de vida e a atividade econômica. Significa construir um caminho sólido em que o trabalhador possa viver melhor sem que o emprego com carteira assinada se torne escasso, caro ou instável. A dignidade do trabalho reside na sua formalidade e na capacidade de prover estabilidade a longo prazo para o cidadão.
No setor industrial, enfrentamos o desafio hercúleo de qualificar cerca de 14 milhões de pessoas até 2027, conforme aponta o Mapa do Trabalho Industrial. Temos milhares de vagas abertas que exigem especialização, e a produtividade é o motor que permite que as empresas cresçam, invistam em tecnologia e ofereçam melhores salários. A redução de jornada deve, portanto, ser acompanhada por ganhos de eficiência e por uma discussão setorial que respeite as particularidades de cada ramo de atividade, garantindo que o custo de produção não inviabilize a existência da própria indústria nacional.
Acreditamos que o diálogo entre capital e trabalho é o único caminho para uma evolução segura e duradoura. O manifesto das 112 entidades, do qual o Ciesp se orgulha de fazer parte, busca assegurar que a modernização do trabalho no Brasil seja sinônimo de progresso social real, mantendo as empresas competitivas e, fundamentalmente, preservando a dignidade do emprego formal para as próximas gerações. Somente com equilíbrio e responsabilidade poderemos avançar sem deixar ninguém para trás.
Francesconi Júnior é 1º vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp