“Se a educação não for libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”.
Essa é uma frase muito conhecida e atribuída ao filósofo e educador Paulo Freire (1921-1997), mas na realidade ele nunca a pronunciou ou a escreveu na sua obra mais famosa, a “Pedagogia do Oprimido”. Contudo, ela é um bom resumo (se é que isso pode ser feito) de um dos seus pensamentos mais nucleares sobre a educação.
Desde o meu primeiro contato com esta frase me impressionei como pode ser aplicada, de forma decisiva, na descrição do mecanismo social em vários níveis e nichos para além da educação formalmente estabelecida, de forma que me arrisco dizer que aponta para a profundidade do ser humano, para algo muito antigo e perene.
Aproveitando esta semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, vou me colocar um pouco mais em risco compartilhando aqui um pouco da minha visão de como está colocado o papel da mulher na sociedade hoje.
Poderia começar dizendo que a sociedade avançou muito em reconhecer o papel e importância do feminino, tendo em vista que não se queimam mais mulheres como um espetáculo em praça pública, em nome de “um bem maior’’, mas ... será? Primeiro não posso esquecer que nasci homem, branco, em uma família abastada e com oportunidades de me desenvolver em um ambiente emocionalmente estável, de forma que minha visão é “viciosamente” melhor do que a esmagadora maioria dos brasileiros.
Dados luminosos podem corrigir a visão míope que minha posição eventualmente me induz: em 2025, o Brasil teve quatro mulheres assassinadas por dia, em decorrência do menosprezo ou discriminação ao fato de ser mulher. Caso consideremos os abusos sexuais, estaremos diante de uma verdadeira epidemia.
Contudo, o drama vai além, com a maldição do patriarcado e suas roupagens modernas, entre elas o chamado movimento “red pill”, afetando a todos. Vemos homens ignorantes da sua própria essência, colocando-se como vítimas do mal ocasionado por mulheres agressivas (será que me equivoquei sobre o término da caça às bruxas?), propensos a aceitarem essas teorias misóginas porque é mais fácil fazê-lo do que adultecer e encarar o próprio vazio interior.
Os efeitos são sentidos por mulheres também, que acreditam que o empoderamento esteja em se condicionar e transformar-se em homem, performando perante uma sociedade desta maneira. É somente uma isca para que se distraiam do que já possuem dentro de si, procurando algo “do lado de fora” para se preencherem. O feminismo não é o oposto do machismo e quem assim acha não está liberto dos papeis que o patriarcado reservou para cada um, como ensinou Freire.
A libertação está em reconhecer-se como ser humano (todos os gêneros) único e genuíno, diferente de todos seus pares, mas com exatamente mesmo valor para o conjunto, independente do que se faça, pois isso é premissa de quem é, ou seja, direito nato e inerente ao humano. A sociedade quando evoluída dá respaldo para que o indivíduo se realize nestas condições e a garante sua segurança quando, ao se sentir invadido, falar “não”.
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura, com formação em osteopatia e medicina tradicional chinesa