A primeira vez que assisti a uma roda de capoeira foi na praia. Creio que na década de setenta. Fiquei encantada. O som do atabaque, agogô e do berimbau e o canto mexeram com meu coração. A capoeira surgiu como resposta à violência a qual os escravizados eram submetidos em tempos coloniais e imperiais no Brasil. A partir de golpes e movimentos corporais ágeis, a luta permitia que eles se defendessem das perseguições dos capitães do mato, cuja atribuição era capturar quem havia fugido. Após a abolição da escravatura, a prática continuou sendo vista como subversiva e apenas deixou de ser considerada assim pelo Código Penal brasileiro. Esta técnica era também uma forma de preservar a cultura de origem e desenvolver laços entre os praticantes.
Atualmente, a capoeira é registrada como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Artístico Nacional e pela UNESCO, que a inscreveu como Patrimônio Histórico Cultural Imaterial da Humanidade. Com o tempo, expandiu-se para a Europa, América do Norte, África e Ásia.
Toca-me a alma porque faz parte de minha história, inserida na História do Brasil. Alguns de meus ascendentes, vindos de Portugal, da Espanha e do tribo dos Karajás em Goiás, conviveram com a escravidão e sempre lamentei e me comovi por essa parte da História, que prossegue através do preconceito.
Tornei-me mais próxima da capoeira a partir de 2007 com o trabalho do grande Mestre Bola Sete, da Capoeira Brasil, na Associação Socioeducacional Casa da Fonte, um dos locais onde ele desenvolve seu trabalho, que é perfeito. Alunos atentos ao gingado, às evoluções, ao toque e o canto que os remetem, além da cultura, em um mundo tão são valores, à cadência certa do coração. Anualmente, durante três semanas, ele partilha seus ensinamentos e sabedoria na Alemanha e em outros países da Europa.
Tive a honra de conhecer o Mestre Paulinho Sabíá, cofundador da Capoeira Brasil, em um evento na Casa da Fonte, através do Mestre Bola Sete. Amável e comprometido com a causa. Foi brutalmente assassinado nas ruas de Niterói no mês passado. Fruto da violência que impera sem se enfrentar as raízes das causas.
A respeito de sua morte, transcrevo alguns trechos de publicação do cientista social, doutor em sociologia da cultura e consultor legislativo do Senado Federal, na Carta Potiguar, tendo como tema “Violência Urbana e Patrimônio Cultural no Brasil’.
“...Trata-se da interrupção de uma trajetória que articulava arte, memória, formação humana e ancestralidade. (...) A cultura brasileira, especialmente suas expressões populares, depende do espaço público. É na rua que se organiza a roda, que o samba encontra corpo, que o grafite transforma o muro, que a dança, o teatro e a música experimentam o improviso. Quando a violência converte esses espaços em territórios do medo, inibe-se a livre atuação dos agentes culturais. O receio limita encontros, reduz circulação e fragiliza redes de criação e de transmissão de saberes. (...) A morte violenta do Mestre Paulinho Sabiá interrompe essa cadeia de maneira abrupta. (...) Quando um mestre ou uma mestra da capoeira é assassinado, não é apenas uma trajetória que se encerra. É uma parte de nossa memória coletiva que se cala”.
Maria Cristina Castilho de Andrade
É professora e cronista