Durante décadas a sauna foi associada apenas ao relaxamento e ao lazer, me lembro quando criança, a sauna era um sucesso. No entanto, nos últimos anos, o interesse científico pelo uso terapêutico da sauna seca voltou a crescer de forma consistente e tenho acompanhado isso de perto nos estudos do Eldoa. O que antes era visto como tradição cultural, hoje começa a ser compreendido sob a ótica da fisiologia e da medicina preventiva.
A sauna seca expõe o corpo a temperaturas elevadas. Essa elevação térmica provoca aumento da frequência cardíaca, vasodilatação periférica e maior fluxo sanguíneo. Em muitos aspectos, a resposta cardiovascular se assemelha a um exercício aeróbico leve a moderado. O coração trabalha mais, a circulação melhora e há maior entrega de oxigênio e nutrientes aos tecidos.
Pesquisas observaram que o uso regular de sauna está associado à redução do risco de doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral e mortalidade por todas as causas. Embora estudos observacionais não provem causa direta, os resultados chamaram a atenção da comunidade científica e abriram espaço para investigações mais aprofundadas.
Do ponto de vista fisiológico, o calor intenso ativa proteínas chamadas proteínas de choque térmico, que participam de mecanismos celulares de proteção e reparo. Há também melhora da função endotelial, que é fundamental para a saúde dos vasos sanguíneos, além de possível impacto positivo na sensibilidade à insulina e na modulação inflamatória.
Outro aspecto frequentemente discutido é a eliminação de toxinas pelo suor. O suor é composto principalmente por água e eletrólitos, mas pode conter pequenas quantidades de metais pesados, bisfenol A, ftalatos e outros poluentes ambientais. Estudos sugerem que algumas substâncias lipofílicas podem ser parcialmente eliminadas por meio da sudorese.
No entanto, é importante esclarecer que a principal via de desintoxicação do organismo continua sendo o fígado e os rins. A sauna pode atuar como ferramenta complementar, mas não substitui hábitos estruturais como alimentação adequada, hidratação e sono de qualidade.
Em relação aos microplásticos, a ciência ainda está em fase inicial de investigação. Já se sabe que partículas microscópicas estão presentes no sangue e em diferentes tecidos humanos, mas ainda não há evidências robustas de que a sauna seja uma estratégia comprovada para eliminá-las de forma significativa. O que se pode afirmar com mais segurança é que o aumento da circulação e do metabolismo induzido pelo calor favorece processos fisiológicos naturais de depuração.
A sauna também exerce efeitos relevantes sobre o sistema nervoso autônomo. Após o estímulo térmico ocorre uma resposta de relaxamento, com aumento da atividade parassimpática. Muitas pessoas relatam melhora do sono, redução da tensão muscular e sensação de bem estar profundo. Do ponto de vista da fisiologia adaptativa, a sauna pode ser entendida como um estímulo hormético, um estressor controlado que ativa mecanismos de adaptação e fortalece a resiliência do organismo.
Vivemos em uma era de alta exposição a poluentes ambientais, estresse crônico e sobrecarga metabólica. A busca por estratégias que apoiem o equilíbrio interno é crescente, sendo assim, o uso terapêutico da sauna retorna justamente por dialogar com a biologia humana de forma simples, deliciosa e ancestral.
Para indivíduos saudáveis, sessões de 10 a 20 minutos, com adequada hidratação e respeito às contra indicações médicas, podem trazer benefícios significativos. Pessoas com doenças cardiovasculares instáveis, hipotensão importante ou outras condições específicas devem buscar avaliação profissional antes de iniciar a prática.
A sauna não é nenhum milagre nem solução isolada, mas quando integrada a um estilo de vida saudável, pode ser uma ferramenta interessante para promover circulação, adaptação celular e relaxamento profundo. Em meio à nossas vidas aceleradas e ao excesso de estímulos, talvez o calor nos lembre que suar também é uma forma de cuidar. Muita saúde a todos.
Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo, pioneira do método ELDOA no Brasil