OPINIÃO

Sobre o amor


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Comentei, sábado, no Carmelo São José, com Dom Vicente Costa, nosso querido Bispo Emérito, após a Missa, que o adolescente, que lhe apresentara alguns dias antes e pedira o Batismo, fora detido. A Missa teve também a intenção de Sétimo Dia da avó amada dele. Dom Vicente olhou-me com lamento e me disse com a generosidade que lhe é peculiar: “Deus vê o coração”. Tocou-me de tal maneira a forma com que ele me falou, que refleti a semana inteira sobre o coração do menino.

Conheço-o desde o ventre materno. Grande parte é de perdas. As pessoas vão e vêm, de acordo com sua história, e isso, sem dúvida, lhe fez, muito pequeno, experimentar a dor de ausências. Depois, foi a casa... Ah, a casa com pé de manga, abacate e jaca! Saborosos. A avó preparava para ele batida com leite. As paisagens do entorno lhe faziam bem. Tinha passarinhos, flores, borboletas. No terreno arenoso puxava seu carrinho de madeira.

Foi difícil juntar o que era possível e sair de mãos dadas com a avó para um lugar, embora conhecido, estranho. Preferia antes com quem convivia. Pior, no entanto, do que perder a casa, seria não ter mais as mãos da avó.

Depois de um tempo, encontraram outro canto, onde eram só eles, e mais tarde uma habitação. Os dois e mais alguns que chegavam de familiaridade. Ali que completou a infância com seus sonhos de menino. Desenhar lhe fazia um bem imenso. Atraía plateia e seus olhos brilhavam. O último desenho dele, que vi, estava ao lado da avó no hospital em que ela vivia os seus últimos momentos. O nome dela em verde, coraçõezinhos em volta e na parte superior uma coroa de rainha. Emocionei-me. Era o que ele possuía para lhe ofertar naquele momento de despedida.

Na adolescência, acentuou-se a doença autoimune que possuía. Tratou durante dois anos, na infância, até que se aquietou. As dores eram bem fortes. A essa doença se juntaram outras no desequilíbrio do trapézio do crescimento sem discernir qual lado seria o melhor.

Na escola não deu certo. Considerava-se vítima de preconceito e agredia.
Infelizmente, tropeçou no vácuo de si mesmo e, apesar da insistência e de alguns braços estendidos, não consegue permanecer em pé. Além da outra doença, existe aquela que lhe causa delírios, alucinações, pensamentos desorganizados, comportamentos desorganizados, expressão emocional limitada, com pouca ou nenhuma demonstração de sentimentos, isolamento social. Coloca tudo em um pacote só.

Medicado, acompanha o dia a dia sem alterações maiores. Para ele, contudo, a medicação o impede de estar no seu mundo paralelo, onde o álcool e a droga o fazem esquecer.

Foi detido nesse vaivém em noite de carnaval. Que pena, apesar dos reencontros tantos não conseguir se harmonizar!

Ficarão agora, também, sequelas do ambiente em que está, caso permaneça resistindo.

Sem dúvida, ficou também um pedaço de céu no coração dele. E foi sobre isso que Dom Vicente me falou: “Deus olha o coração”, ou seja, com compaixão.

Deus cuida de ampliar o lado de Céu dele, que ficou em meio a tantas sucatas que a vida lhe ofertou.
Recordo de uma frase de Dom Luciano Duarte (1925-2018, Arcebispo de Aracaju): “Uma pessoa é alguém que é preciso descobrir por detrás da fuligem do cotidiano”.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista

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