Tem crescido a procura por cuidadores de idosos, impulsionada pelo envelhecimento da população e pela rotina cada vez mais apertada das famílias. Ao mesmo tempo, cresce uma preocupação que precisa ser dita com clareza: nem todo mundo que se apresenta como cuidador está, de fato, preparado para cuidar. E não se trata apenas de curso, certificado ou uniforme. Trata-se de postura, responsabilidade e compromisso com a dignidade de quem envelhece.
A pergunta é direta e necessária: cuidar é só fazer o curso? A formação é indispensável, mas não resolve sozinha. O cotidiano do cuidado exige constância, atenção ao detalhe, paciência, ética e capacidade de observar. Exige compreender que o idoso, muitas vezes, não consegue prover o autocuidado, depende de terceiros para ações básicas e vive com limitações físicas, cognitivas ou emocionais. Em um cenário assim, qualquer descuido pode virar risco. Qualquer desatenção pode virar queda. Qualquer “depois eu faço” pode se transformar em agravamento.
O problema aparece quando a profissão vira rótulo e o idoso vira tarefa. Há casos de impaciência com a lentidão, respostas ríspidas, falta de escuta, negligência com rotinas fundamentais, como hidratação, alimentação, higiene, mobilidade segura e organização de medicamentos. Também há a postura de quem “cumpre horário”, mas não assume a responsabilidade do cuidado integral. Não é raro a família perceber que a presença física existe, mas a atenção real não.
Cuidado não é espetáculo e não é vitrine. O idoso não é cenário, e a casa não é palco. A relação de confiança que se estabelece é profunda: famílias entregam o que têm de mais valioso, e idosos abrem sua intimidade para alguém que, muitas vezes, não fazia parte da história daquela casa. Isso exige maturidade emocional, descrição, respeito e empatia. Exige, acima de tudo, entender que cuidar é serviço. E serviço, na saúde e no cuidado, não combina com vaidade.
É importante dizer também o outro lado: há excelentes profissionais. Gente que escolheu essa área com propósito, que estuda, observa, se atualiza, comunica-se bem com a família, trabalha com zelo e humanidade. Esses precisam ser valorizados. Mas valorização não pode significar tolerância com maus profissionais. A profissão não pode ser banalizada. O cuidado domiciliar não pode virar improviso.
Se queremos um envelhecimento mais seguro, precisamos resgatar o sentido do cuidado como missão prática e humanitária. Não basta dizer “sou cuidador”. É preciso ser, na rotina, na paciência, no detalhe e na ética. O diploma abre portas. Quem sustenta a permanência é a postura. O idoso merece mais do que presença. Merece atenção, respeito e dignidade. E isso não é opcional.
Edvaldo de Toledo é empresário, enfermeiro, especialista em Gerontologia e Geriatria, Apresentador do IssoPodAjudar, Criador da Cuidare Home Care (@edvaldo.toledo)