OPINIÃO

Quando o tempo perdeu suas estações


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Conversando com amigos e, como sempre, a nossa infância apareceu na conversa. Lembramos de uma imagem que hoje soa distante: no mês de junho, o céu pontilhado de balões iluminados. À noite, aquelas pequenas luzes desenhavam uma cena que hoje não se vê mais. Evidentemente, os balões precisaram desaparecer – os  riscos são óbvios e não há discussão aí. Mas era bonito de ver e a lembrança, puxou outra coisa menos visível, que foi além da imagem em si.

No passado, o tempo parecia mais bem definido. Cada acontecimento precisava esperar o seu momento para existir. Balão era em junho; papagaio, em agosto.Chocolate era coisa da Páscoa; Panetone, exclusividade do Natal. Essa segmentação do tempo criava expectativa. Os desejos não eram satisfeitos de imediato: era preciso esperar. E a espera, longe de ser um incômodo, era parte da experiência. Ela amadurecia o desejo e ampliava a alegria do encontro com o que se aguardava.

Também a comida obedecia a esta lógica. Os ciclos eram sazonais: bacalhau na Semana Santa, feijoada no inverno, frutas no tempo certo. Não se tratava apenas de limitação financeira, mas de uma relação marcada pelo ritmo natural das coisas. Hoje, tudo mudou. Não se trata de julgar. Não é melhor nem pior. É diferente. Vivemos num mundo em que quase tudo está disponível o tempo todo. O acesso se ampliou, as fronteiras diminuíram, mas, nesse processo, o tempo perdeu parte de sua segmentação.

Quando tudo pode ser consumido a qualquer momento, sobra pouco espaço para o desejo. A abundância constante enfraquece a espera, e a ausência de espera dilui o valor simbólico das coisas. Não porque elas sejam menos importantes em si, mas porque já não precisam ser desejadas: estão sempre ali, prontas, imediatas. Falta-lhes não o valor material, mas o valor do tempo investido nelas.

Talvez o exemplo mais eloquente dessa mudança esteja nos brinquedos das crianças. Antes, brinquedos eram reservados a ocasiões específicas: aniversário e Natal. Hoje, eles circulam ao longo do ano inteiro. Digo isso porque meu neto me enviou o convite para seu aniversário com uma observação curiosa: “não trazer presentes”. Intrigado, perguntei o motivo.

A resposta foi: ele já ganha brinquedo o ano todo e não se interessa muito mais por eles.

Esse pequeno episódio diz muito sobre o nosso tempo. Quando não há intervalos, quando tudo acontece sem pausa, até a alegria corre o risco de se acumular sem ser plenamente vivida. O desafio contemporâneo não é recuperar o passado, mas reaprender a criar limites, ritmos e esperas — não por escassez, mas por sentido. Afinal, o valor das coisas nasce exatamente do tempo que esperamos por elas.

Francisco Carbonari é ex-secretário de Educação 

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