OPINIÃO

Escala 6x1: expectativa x realidade


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 A discussão sobre o fim da escala 6x1 e a imposição de uma jornada de 36 horas semanais ganhou as redes sociais com um apelo emocional compreensível, mas perigosamente descolado da realidade produtiva brasileira. Como representante do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), vejo com extrema preocupação uma proposta que, sob o pretexto de oferecer descanso, pode entregar a “folga do desemprego” a milhões. Não se trata de falta de empatia, mas de matemática econômica aplicada.

Estudo recente do FGV Ibre acende um alerta vermelho ao projetar que a implementação dessa medida causaria uma retração de 6,2% no PIB nacional. O custo da hora trabalhada subiria 22%. Para o setor industrial e logístico, motor da região de Jundiaí e região, o impacto é drástico. Como uma pequena empresa, com margens estreitas, absorveria isso sem repassar preços ou fechar as portas? O Brasil enfrenta um apagão de produtividade. Entre 2012 e 2024, o ganho de produtividade por hora foi zero. Sem produzir mais no mesmo intervalo, a redução torna-se um imposto sobre o consumo e freio na competitividade. Setores como transportes com queda de 14,2%, indústria extrativa com menos 12,6% e comércio com menos 12,2% seriam os mais atingidos em valor agregado. Em um polo como o nosso, o efeito cascata seria devastador para todos os níveis sociais.

Atualmente, a jornada média no Brasil é de 39 horas, fruto de negociações entre sindicatos e empresas que respeitam as peculiaridades de cada segmento. A interferência via PEC ignora que nossa eficiência é inferior à de economias desenvolvidas. Enquanto não investirmos maciçamente em educação e inovação, a redução de jornada será inflacionária.

A questão da produtividade é estrutural. Um trabalhador americano produz hoje o equivalente a quatro brasileiros. Esse abismo está ligado à complexidade tributária, à logística deficitária, à defasagem tecnológica, à baixa escolaridade e formação técnica limitada, além de graves falhas de gerenciamento interno. Sem atacar esses gargalos, qualquer mudança por decreto é artificial.

A proposta em debate no Congresso demanda uma transição gradual e uma análise técnica aprofundada. O avanço social deve ser construído com segurança jurídica, preservando a saúde das empresas e um ambiente estável que permita o crescimento real da renda. Fortalecer a indústria é garantir a continuidade do emprego. É fundamental que o bom senso norteie os diálogos e as decisões para que ajustes estruturais ocorram sem comprometer postos de trabalho ou a economia regional. O diálogo inteligente entre os setores público e privado deve prevalecer para soluções sustentáveis. O futuro de Jundiaí e do país depende de cooperação, assegurando que o progresso seja pautado por bases econômicas sólidas e por ganhos reais de produtividade. Somente o equilíbrio institucional poderá garantir que a busca por bem-estar social não destrua as bases que sustentam a nossa economia.

*FRANCESCONI JÚNIOR é 1º vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp

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