OPINIÃO

A fé sequestrada pela hipocrisia


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Há um tipo de tristeza que não nasce da raiva nem do embate direto, mas da constatação lenta e dolorosa de que algo essencial está sendo desfigurado.

É a tristeza de quem observa com atenção e responsabilidade a fé, que deveria ser espaço de encontro, conversão e serviço, sendo reduzida a instrumento de disputa, identidade de grupo e justificativa para incoerências pessoais e coletivas. Não é uma indignação passageira; é um luto silencioso

 A fé cristã, que deveria inquietar consciências e exigir coerência, foi capturada por discursos ideológicos que a usam como escudo moral e como arma contra o outro.

O que se vê com frequência  cada vez maior  é uma fé de conveniência. Pessoas que se apresentam como defensoras intransigentes da família enquanto suas próprias vidas desmentem o discurso que proclamam. Não se fala aqui de fragilidades humanas, que todos carregam, mas da arrogância moral de quem transforma valores cristãos em slogans públicos sem qualquer esforço real de vivê-los.

A incoerência não é reconhecida como problema, mas justificada como direito. 
A fé deixa de converter e passa a legitimar.

No campo progressista, a contradição não é menor. Muitos que se dizem defensores da vida e da dignidade humana escolhem cuidadosamente quais vidas merecem defesa. 
Clamam com intensidade pela legalização do aborto, mas permanecem indiferentes diante da miséria estrutural, da exclusão social e da falta de políticas eficazes para os pobres, que continuam sendo descartados com naturalidade. Há uma sensibilidade seletiva que se comove mais facilmente com causas simbólicas do que com a fome concreta, o desemprego e a humilhação cotidiana de milhões de pessoas invisíveis. 
Quando a compaixão se torna ideológica, ela perde sua credibilidade.

Nesse ambiente intoxicado, qualquer tentativa de reflexão honesta é imediatamente atacada. 
Quem não repete slogans é rotulado. 
Questionar excessos vira sinônimo de traição. O debate é substituído por acusações fáceis: comunista, reacionário, inimigo da fé. A lógica é simples e perversa. Não importa a verdade, importa o alinhamento. A fé, que deveria libertar, passa a aprisionar.

O mais grave é que se abandona o critério fundamental do cristianismo: o testemunho. Jesus não construiu poder a partir da religião. Ele desmascarou os que usavam Deus para se promover. Denunciou os hipócritas com dureza e se colocou ao lado dos pobres, dos excluídos e dos que não tinham voz. 
Seu escândalo não foi político, foi moral. Ele viveu o que anunciou.

A crise atual não é falta de fé.
Ao contrário: trata-se de um excesso de discurso e, especialmente, escassez de exemplo. Nunca se falou tanto em Deus e nunca foi tão raro percebê-Lo transparecendo nas atitudes. 
Uma fé que não gera humildade, responsabilidade e compromisso real com os pobres não é cristã, mas sim ideologia revestida de linguagem religiosa.

E isso não provoca apenas discordância. 
Leva a tristeza e cansaço. 
Porque enquanto a fé for usada para justificar hipocrisias, os pobres continuarão esquecidos, o Evangelho continuará silenciado e a religião seguirá sendo mais um instrumento de divisão, quando deveria ser sinal de conversão.

Samuel Vidilli é cientista social

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