OPINIÃO

Humberto de Campos em Jundiaí


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O escritor Humberto de Campos (1886-1934), uma das figuras mais instigantes dos séculos XIX e XX, foi um maranhense que exerceu inúmeras atividades intelectuais. Foi jornalista, escritor e político. Origem humilde, nasceu no município de Miritiba, que hoje leva o seu nome. Um fato interessante: aos seis anos, com a morte do pai, muda-se para Parnaíba, no Piauí, onde planta um cajueiro. Esta árvore ainda existe e se tornou atração turística. Aliás, retratado em seu livro “Um amigo de infância”.

Publica “Poeira”, livro de versos, que lhe garante renome e vai para o Rio de Janeiro, onde convive com escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. São seus colegas de jornalismo Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro.

É eleito em 1919 para a Academia Brasileira de Letras, em sucessão a Emílio de Menezes, na Cadeira 20. No ano seguinte é eleito Deputado Federal pelo Maranhão, com mandatos renovados até à Revolução de 1930.
Prolífico, escreveu muito e inclusive um “Diário Secreto”, no qual ataca figuras de proa. Amigos seus e inimigos, todos enfrentam a sua franqueza que chega a ser cruel.

Mas numa das viagens que fez a São Paulo, em 12 de dezembro de 1929, passa por Jundiaí. Saiu da capital, de automóvel, com destino ao interior. E conta como foi a viagem: “As terras que atravessamos a princípio estão cansadas, mas ainda estão lindas...Aqui e ali um bosque de eucaliptos, uma larga extensão de terras reflorestadas. E toda essa terra cheira como se estivéssemos ainda no oitavo dia da Criação”.

Passou por Jundiaí por volta das 9h30 da manhã. “Cidade antiga, pintada de novo. Em uma das extremidades, num alto, o cemitério caiado de véspera, e, dentro, um jardim com árvores à “Le Notre”, cortadas caprichosamente, como as de um jardim público”. E faz um comentário elogioso: “Os mortos, aqui, são melhor tratados que os vivos”.

Com certeza, hoje lamentaria o estado em que se encontra a parte mais antiga da nossa necrópole, com túmulos da nobiliarquia jundiaiense dos séculos XVII em diante, e que estão muito mal conservados, quando deveriam ser tombados pelo Patrimônio local.

Foi essa a menção à nossa cidade, feita por quem ficou mais tempo em Campinas, no então chamado Instituto Agrícola, depois Instituto Agronômico, onde pesquisadores e especialistas nacionais e estrangeiros estudam os segredos do mundo vegetal. Visita a Fazenda Santa Elisa, que é boa mostra da fortuna verde paulista.

Almoçou com o prefeito Orozimbo Maia, que tinha um tipo físico muito semelhante ao Barão do Rio Branco. Tanto que, em viagens de rotina para a capital federal, Rio de Janeiro, era cumprimentado como se fosse o Barão. Era também amigo de Coelho Neto, que viveu em Campinas como professor de literatura no Culto à Ciência. Encanta-se com Campinas, que diz ser uma cidade que tinha conforto e virtude. “É a terra ideal para a formação de um lar. As famílias têm o zelo da reputação, podendo, ao mesmo tempo, ministrar aos jovens uma educação perfeita e honesta”.

Continuou a viagem até a Vila Americana, que depois se converteu no populoso e crescente município de Americana. Originou-se de uma colônia de americanos do norte, que abandonaram a pátria e vieram estabelecer-se ali, após à guerra da Secessão.

Faria bem a todos reler a obra de Humberto de Campos. Sobretudo o seu “Diário Secreto”, uma crônica mordaz do Rio de sua época. A curiosidade é que, depois de sua morte, Chico Xavier começou a psicografar com seu nome, o que fez com que viúva e filhos reivindicassem direitos autorais. Embora tenham perdido a ação, Chico Xavier, a partir daí,mudou o nome do psicografado.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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