Meio século depois, a conquista ainda ecoa na memória de quem viveu aquele momento histórico. Em 1976, o Jundiaí Clube colocou a cidade no topo do basquete nacional ao conquistar, de forma inédita, o Campeonato Brasileiro Juvenil Masculino de Clubes. O título se tornou um dos capítulos mais marcantes do esporte jundiaiense e segue sendo celebrado como símbolo de uma geração que transformou a cidade em referência na modalidade.
A campanha daquele ano representou muito mais do que um troféu. Foi o resultado de um trabalho de formação que começou anos antes e reuniu jovens atletas que cresceram juntos dentro das quadras. Entre eles estava Norberto José da Silva, conhecido no meio esportivo como “Borracha”, que décadas depois também se tornaria um dos técnicos mais respeitados do basquete feminino brasileiro.
Hoje com 68 anos, Borracha guarda lembranças vivas daquele grupo. Segundo ele, o time era formado por jogadores que já dividiam a quadra desde a infância. “Era uma geração que jogava junta desde os 12 anos. Tínhamos uma história de amizade, convivência, companheirismo e muito talento”, recorda.
A base daquele trabalho foi construída por treinadores e dirigentes que acreditavam na formação de atletas. Borracha cita nomes que foram fundamentais para a evolução do basquete em Jundiaí, como o mentor João Francisco Braz, técnico medalhista olímpico e campeão mundial, além de Nestor Mosterio e Angelo Nunes, treinadores que ajudaram a moldar o estilo da equipe.
O suporte fora de quadra também teve papel decisivo. Dirigentes como Almir Massoti, Carlos Iamonte e Gonçalo Miguel deram o apoio necessário para que o projeto se consolidasse. Para Borracha, o título de 1976 foi consequência direta desse trabalho coletivo.
“O título inédito foi fruto de uma evolução no trabalho desenvolvido no Jundiaí Clube, que sempre foi um grande formador de atletas”, afirma. Ele lembra que aquela geração também conviveu com nomes que posteriormente se tornaram referências do basquete brasileiro, como Marcel de Souza e Maury de Souza.
Entre todos os jogos daquela campanha, um em especial ficou marcado na memória do ex-atleta. A partida decisiva contra Uberlândia terminou com vitória apertada do Jundiaí Clube por 65 a 64, definida nos segundos finais.
“O jogo mais marcante foi contra Uberlândia. Vencemos por 65 a 64, com uma cesta especial do jogador China no último segundo”, relembra Borracha, destacando o momento que selou a conquista histórica.
Cinquenta anos depois, o título ainda é lembrado pela comunidade do basquete local. Para marcar o Jubileu de Ouro da conquista, os ex-atletas e integrantes da chamada “Família do Basquete” irão se reunir novamente no tradicional encontro que celebra a história da modalidade na cidade.
O evento, que chega à sua 20ª edição, está marcado para o dia 11 de abril, na Chácara Sem Fim, em Jundiaí. Mais do que uma confraternização, o encontro simboliza a união de gerações que ajudaram a construir o legado do basquete local.
Se dentro de quadra Borracha participou de uma conquista histórica, fora dela sua trajetória seguiu igualmente marcante. Após encerrar a carreira como jogador, ele iniciou uma longa caminhada como treinador, especialmente no basquete feminino, onde acumulou mais de três décadas de atuação.
A ligação com o esporte começou ainda no Colégio Divino Salvador, em Jundiaí, onde estudava. Foi ali que, aos 19 anos, iniciou sua carreira como técnico. Curiosamente, em seu primeiro time da categoria mini estava a armadora Branca, que mais tarde se tornaria um dos grandes nomes do basquete nacional.
Nos anos seguintes, Borracha ganhou projeção no cenário brasileiro ao atuar como assistente técnico em equipes importantes. Em Sorocaba, trabalhou ao lado do treinador Antônio Carlos Vendramini, um dos nomes mais vitoriosos do basquete feminino no país.
Ao longo da carreira, o treinador também teve contato direto com algumas das maiores atletas da história do basquete brasileiro. Entre elas estão Hortência Marcari e Magic Paula, duas referências internacionais da modalidade.
“Trabalhar com grandes mitos como Hortênsia e Paula é indescritível. São referências mundiais, com talento absurdo, profissionalismo e uma vontade de vencer incomparável”, destaca Borracha. Segundo ele, o comprometimento das atletas se refletia em horas e horas de treinamento.
Durante sua trajetória como técnico, Borracha comandou equipes tradicionais e conquistou títulos importantes, além de acumular experiências em seleções estaduais e nacionais. Seu currículo inclui conquistas como campeonatos sul-americanos, títulos brasileiros e premiações individuais como melhor treinador.
Para ele, o sucesso no esporte nunca acontece por acaso. “Grandes conquistas só acontecem com muita dedicação e trabalho. Sorte é para quem tem competência”, afirma.
Ao olhar para trás, Borracha vê no basquete muito mais do que uma carreira. Para ele, a modalidade sempre foi uma escola de vida. Por isso, deixa uma mensagem para as novas gerações de atletas da cidade.
“Basquete exige dedicação, empenho e disposição para abrir mão de muita coisa. Mas o esforço sempre é recompensado”, diz. Uma lição que atravessa décadas e continua inspirando jovens que sonham em seguir os mesmos passos dentro das quadras.