OPINIÃO

Tudo continua igual


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Por que sempre consideramos que o melhor já passou, que os tempos antigos eram melhores e que nós estamos retrocedendo a cada instante? Há várias respostas. Uma delas é: porque tal sensação reflete a realidade. Tudo recua: o cultivo da virtude, o preito aos valores, o apreço à família, a observância ética em todos os setores.

Todavia, tente-se encontrar algum alento ao observar que há algum progresso: na ciência, na tecnologia, na conquista da longevidade. Verdade que ainda se morre de câncer, sob as mais variadas formas, das quais a leucemia é carrasco-mor. Morre-se de enfarte, de AVC, e, lamentavelmente, de homicídio e, nos últimos tempos, de feminicídio.

Há também o verdadeiro e crescente ecocídio: a opção pelo suicídio coletivo de uma sociedade que não leva a sério nem o alerta dos cientistas, nem o recado da natureza, que está muito ressentida com a insensatez do bicho-homem.

Mas há um espaço que merece críticas generalizadas e que não parece suscetível de aprimoramento imediato. É o Parlamento. Aquilo que Montesquieu chamava de “caixa de ressonância das aspirações populares”, se transformou em palco de contínua busca de interesses personalíssimos. Vive de emendas secretas, de emendas Pix, de fundos cada vez mais milionários, sejam os partidários, sejam os eleitorais.

Para mostrar que isso não mudou, só piorou, veja-se a saudade que o escritor Humberto de Campos, da Academia Brasileira de Letras, sentia em 1928, do Parlamento do Império, que existira até cerca de quarenta anos antes. Ao folhear os “Anais” do Legislativo Imperial, Humberto de Campos se defrontava com grandes figuras, homericamente aguerridas, de Zacarias de Góes, Paranhos do Rio Branco, Mauá, Pereira da Silva, Pino de Campos, Rodrigues Silva, Paula Cândido, Saraiva, Paranaguá, Saião Lobato, Justiniano, Mendes de Almeida...

Sobre o Parlamento Republicano daquela primeira metade do século XX, ele aduzia: “Paixões, lutas, rivalidades, entusiasmos. Uma centena de homens enchendo uma casa. E hoje? Todos, sem exclusão de um só, reduzidos a um quilo de poeira, ou a um pequeno monte de ossos, que talvez não encham uma lata...”.

Cruel? Talvez. Mas reflete o pensamento de um dos intelectuais mais prestigiados de seu tempo. Vem à mente aquilo que é atribuído a Ulysses Guimarães: “Está se queixando do Parlamento de hoje? Então espere o próximo...”.

Isso nos faz pensar. Neste 2026, vamos eleger, além de Presidente da República, Senadores e Deputados. Federais e Estaduais. É a hora da renovação. Vamos exigir compromisso. Vamos analisar as propostas. Não se pode mais escolher com base em critérios falíveis e que não correspondem ao papel do Legislativo. Ele é o poder mais próximo à população e também aquele que tem de traduzir em normas, a vontade dos eleitores.

Nós nos esquecemos de que a Constituição da República dispõe: “Todo o poder emana do povo”. É o povo que deve assumir as rédeas na gestão da coisa pública. Se o povo não participa, não fiscaliza, não controla, não sugere e não critica, os parlamentares agem como se fossem autônomos e não tivessem de prestar contas de seus atos.

Parece existir um consenso na busca da renovação. Já não se pode tolerar a continuidade de práticas antirrepublicanas e lesivas do interesse nacional. Vamos ter juízo. Escolher com a razão, não com a emoção. Nem “votar contra”, como tem acontecido. Ainda há gente boa nesse campo minado da política partidária.

José Renato Nalini é reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.  

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