OPINIÃO

O que ‘Orelha’ revelou sobre nossa sociedade


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A morte brutal do cachorrinho Orelha não foi apenas uma notícia triste, que chocou a todos aqueles que amam os animais, que nos fez chorar perante tamanha crueldade, mas trouxe à tona uma questão que devemos refletir, que é o espelho desconfortável da sociedade que estamos construindo. Um ser indefeso, incapaz de ferir, julgar ou ameaçar, adorado por todos, teve sua vida interrompida por jovens mãos humanas. Diante de episódios assim, uma pergunta ecoa aqui dentro: que tipo de vazio habita alguém capaz de praticar tamanha crueldade?

Eu fui pesquisar e descobri que a violência contra animais não nasce do nada. Ela é frequentemente o reflexo de uma mente adoecida, de uma história marcada por negligência afetiva, ausência de limites, falta de educação emocional e banalização da dor do outro. Estudos da psicologia e da criminologia mostram que a agressão a animais é um sinal de alerta importante, muitas vezes associado a comportamentos violentos mais amplos.

Quando alguém é capaz de ferir quem não pode se defender, algo essencial na sua capacidade de sentir e reconhecer o valor da vida foi perdido. Mas o caso do Orelha não diz respeito apenas a quem cometeu o ato. Ele nos convoca como sociedade. Vivemos tempos em que a violência é frequentemente relativizada, justificada ou esquecida com rapidez.

A repetição de imagens de sofrimento pode nos anestesiar. E quando nos tornamos indiferentes, abrimos espaço para que a crueldade se normalize.  Fora que nos últimos anos, um fenômeno silencioso e perigoso tem ganhado espaço: as comunidades virtuais que banalizam a violência e estimulam comportamentos extremos em troca de visibilidade, pertencimento e audiência.

Em alguns ambientes digitais, jovens são expostos a desafios que envolvem automutilação, agressão contra animais, ataques a outras pessoas e até ideias suicidas, muitas vezes travestidos de “jogos” ou “provas de coragem”. Esses espaços exploram fragilidades emocionais de crianças e adolescentes e o desejo de aceitação, transformando a dor em espetáculo e a crueldade em moeda social. Quando o sofrimento vira conteúdo e a violência vira entretenimento, o resultado é bem devastador.

Por isso, falar sobre o caso do Orelha é falar de saúde mental, de educação e de responsabilidade coletiva. A prevenção da violência começa muito antes do crime. Começa na forma como ensinamos nossas crianças a lidar com frustrações, a reconhecer emoções, a respeitar limites e a desenvolver empatia. Empatia não é instinto, é aprendizado.

Respeito não é automático, é construção diária. Valores não se impõem apenas por regras, mas pelo exemplo, pelo diálogo e pelo cuidado, diariamente. Família e escola têm um papel central nesse processo, mas não estão sozinhas. Comunidades, políticas públicas e instituições precisam investir em educação emocional, cultura de paz e promoção da saúde mental. Ensinar jovens a reconhecer o sofrimento do outro, a valorizar a vida e a compreender as consequências de seus atos é uma das formas mais profundas de transformação social, e queremos muito um mundo melhor para vivermos.

A história do Orelha nos lembra que defender os animais é defender a própria humanidade. É recusar a ideia de que a violência seja algo aceitável. É afirmar que toda vida importa. Que nenhuma forma de crueldade pode ser tratada como normal. Que não podemos nos calar diante da maldade, principalmente quando ela atinge os mais vulneráveis.
Que nunca percamos a capacidade de sentir, de nos indignar e de nos importar.

Que nunca deixemos de ensinar o valor da compaixão, da misericórdia e do respeito.  Porque uma sociedade que protege seus indefesos é uma sociedade que ainda acredita na vida. Eu acredito e honro a vida e tenho certeza que você também! Muita saúde a todos.

Especialista em coluna, treinamento corretivo, saúde e bem-estar, pioneira do método ELDOA no Brasil.

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