OPINIÃO

O envelhecer travesti no Brasil


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Aos 92 anos, Tiana Cardeal, moradora de Governador Valadares (MG), é reconhecida como a travesti mais velha do Brasil. Sua trajetória chama atenção não apenas pela idade, mas por contrariar uma estatística dura: no país que lidera os índices de violência contra pessoas trans e travestis, a expectativa média de vida dessa população é de 35 a 40 anos, segundo organizações de direitos humanos.

Travestis no Brasil historicamente enfrentam rejeição familiar precoce, evasão escolar e exclusão do mercado formal de trabalho. Muitas são empurradas para contextos de extrema vulnerabilidade social ainda na adolescência. Esse ciclo compromete o acesso à alimentação adequada, moradia digna e acompanhamento de saúde, fatores diretamente ligados à longevidade.

Tiana viveu grande parte da vida em um período em que não havia qualquer reconhecimento institucional para identidades dissidentes de gênero. Ser travesti significava sobreviver sem direitos, sem proteção do Estado e frequentemente sem vínculos familiares. Sua existência até a velhice é, portanto, uma exceção social, não uma regra natural.

O Brasil ainda carrega marcas profundas de um machismo estrutural, que impõe padrões rígidos sobre o que é ser homem ou mulher. Travestis, por romperem esses modelos, tornam-se alvos preferenciais de humilhação, agressões e invisibilidade. O preconceito não é apenas individual: ele se expressa na dificuldade de acesso à escola, ao trabalho, à saúde e à aposentadoria.

Quando chegam à velhice, travestis enfrentam uma dupla exclusão: por identidade de gênero e por idade. Muitas não têm rede familiar, não contribuíram para a previdência e não encontram políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+ idosa. O envelhecimento, que deveria ser uma conquista, torna-se um novo campo de abandono.

A história de Tiana Cardeal revela uma pergunta que o país evita enfrentar: por que envelhecer sendo travesti ainda é tão raro no Brasil? A resposta está na soma de violência, ausência de acolhimento e negação sistemática de oportunidades.

Mais do que uma biografia singular, Tiana simboliza uma geração inteira que resistiu sem garantias. Falar sobre sua trajetória é falar sobre o direito básico de existir, trabalhar, adoecer e envelhecer com dignidade.

Num país que ainda encurta vidas por preconceito, a velhice de Tiana é resistência viva.

Edvaldo de Toledo é empresário, enfermeiro, especialista em Gerontologia e Geriatria,  Apresentador do IssoPodAjudar, Criador da Cuidare Home Care (@edvaldo.toledo)

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