OPINIÃO

Sobreviventes


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A moça é sobrevivente naquilo que a vida lhe impôs, embora hoje seja da liberdade movida por sonhos e amarguras.


Quando somos crianças, a liberdade é apenas um nome que pode se tornar um anseio. Fugir da escola, por exemplo, quando havia possibilidade, era uma atitude libertária. As saias enroladas na cintura para ficar mais curta e o matinê às 14h no Ipiranga ou Marabá. O auge da independência antes da descoberta dos pais e eles sempre ficavam sabendo. Os pais carregavam uma espécie misteriosa de bola de cristal. Em seguida, vinham as asas encolhidas de castigo em um canto da casa. A gente também acabava contando a verdade, sem comentar sobre a história do filme. E quando a escolha era pular algum muro com o propósito de pegar frutas na árvore de um quintal conhecido ou desconhecido?  Uma vez, recolher pêssegos, com mais três crianças de minha idade em uma casa em reforma, próxima da minha, rendeu-me duas horas no fogão, com a mamãe ao lado, de mão na cintura, para transformá-los em doce e, no dia seguinte, levar de presente ao proprietário da casa, pedindo desculpas pela ousadia. Que vergonha!


Com a moça foi diferente: seu cenário foi o das construções apertadas em uma área de invasão no Estado em que morava. Foi para lá na barriga da mãe, após o avô expulsá-la, pela gravidez, do sítio onde moravam. É bom ressaltar que a gravidez se deu na casa da patroa, em que o filho, bem mais velho do que ela, a seduziu e a culpa, numa sociedade machista, recaiu sobre ela.


Veio daí os desencantos da menina em seus primeiros choros.

Voltando a ela, é moça de coragem diante de acontecimentos funestos. E é moça de fé. Carrega paisagens diversas, em especial de outros países como da Europa, para onde foi levada pensando em se empoderar, em contraste com os que a levaram, sabendo que era de aparência e carne com a qual lucrariam.  Foi assim: não se empoderou e eles lucraram.

Guardou consigo, daquele tempo, as imagens da natureza e das construções centenárias que contam histórias. Pode ter perdido muitas coisas, mas não deixou que levassem a sensibilidade de seu coração para enxergar os outros, em especial os sobreviventes.

Há poucos dias me enviou uma mensagem desesperada. Um senhor, idoso, embriagado, se encontrava estendido na calçada, de bruços, próximo a um bar. Com uma calça maior que seu tamanho físico, deve ter emagrecido, aparecia parte da cueca. Comentam que possui uma aposentadoria de sete mil reais, tem família, contudo se perdeu em seus caminhos.

As razões, ninguém sabe. Depressão, decepção, problemas mentais...E fica fácil julgá-lo. Para alguns é transparente e para outros atrapalha por ocupar parte da calçada. Além disso, pede comida.

Eis que surgiu um rapaz musculoso, em uma moto que também costuma ficar por lá e deu uma surra no senhor em nome da “moral e dos bons costumes”. Ou seja, eis que apareceu um covarde que espancou um idoso embriagado.

Ela ficou das 11h às 17h atrás dos órgãos competentes para conseguir um atendimento a ele.

O perigo não está no idoso, mas no musculoso e amigo, que se consideram inatingíveis pela proximidade com uma facção criminosa.

A minha esperança fica nos homens e mulheres como o Rei Davi que, com uma pedra apenas, derrotou o homenzarrão de espírito funesto. E que essa pedra seja a Justiça verdadeira.

Maria Cristina Castilho de Andrade
É professora e cronista

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