OPINIÃO

O peso dos juros e a competitividade


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Em 2026, o cenário que deveria ser de consolidação da competitividade global brasileira permanece condicionado por um obstáculo estrutural: o custo do capital. Dados da Sondagem Especial da CNI revelam uma realidade persistente, em que 80% dos industriais identificam as taxas de juros como a principal barreira ao crédito. O impacto é severo, especialmente entre médias empresas, das quais 43% não conseguem obter o fomento de longo prazo necessário para sua operação.

Embora o Boletim Focus projete uma queda da Selic para 12,25% ao ano até dezembro, é preciso encarar esse movimento com realismo. Como tenho defendido, essa redução é importante, mas está muito aquém da nossa necessidade real. Mesmo que esse patamar se confirme, o Brasil continuará ostentando um dos maiores juros do mundo. Enquanto isso, competidores diretos como a China operam com juros reais baixíssimos, frequentemente situados na faixa de 1,5% a 2%, o que funciona como um motor potente para o investimento em inovação.

Instituições como o Itaú e o FMI observam que o cenário global pode favorecer cortes pelo Banco Central. Contudo, para quem está no chão de fábrica, 12,25% ainda é um valor proibitivo. Como 1º vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp, observo que na região de Jundiaí a intenção de investir esbarra na inviabilidade financeira.

É fundamental entender que não há como ser competitivo sem inovação e tecnologia, e não se faz tecnologia de ponta com o capital custando o que custa no Brasil. A modernização das linhas, essencial para o Acordo Mercosul-União Europeia, exige um custo de capital que não devore a margem operacional.

Embora as projeções de queda da Selic tragam um alento necessário, é preciso cautela: a redução do custo de capital é apenas uma peça de um quebra-cabeça mais complexo. Para que o crédito se torne uma ferramenta de crescimento e não um passivo de risco, essa flexibilização monetária deve vir acompanhada de responsabilidade fiscal e estabilidade institucional.

O cenário para o restante de 2026 sinaliza uma janela de oportunidade para a retomada dos investimentos, mas a indústria paulista e nacional só voltará a ser o motor do desenvolvimento se o acesso ao fomento for perene e competitivo. O momento exige vigilância e pragmatismo para garantir que a esperança de hoje se converta em modernização tecnológica e solidez produtiva amanhã.


FRANCESCONI JÚNIOR é 1º vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp

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