Vivemos uma era em que o corpo até para, mas a mente nunca descansa. Nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão distantes do verdadeiro relaxamento. Muitas pessoas acreditam que estão descansando quando se jogam no sofá com o celular na mão, mas, na prática, apenas substituem um tipo de estímulo por outro. O trabalho termina, mas o cérebro continua em estado de alerta. A tela não representa descanso, e o sistema nervoso não reconhece esse estado como recuperação.
O cérebro humano foi projetado para alternar entre momentos de ativação e períodos
de repouso. É nessa alternância que ocorre o equilíbrio biológico. No entanto, o uso constante do celular mantém o organismo em um estado de hiperestimulação. Cada notificação, mensagem ou novidade ativa o sistema de recompensa, liberando dopamina, o neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação.
Com o tempo, o cérebro passa a buscar incessantemente esses estímulos, criando um ciclo de dependência. Quando o estímulo desaparece, surgem ansiedade, inquietação e desconforto. Por isso, muitas pessoas não conseguem ficar em silêncio, nem sozinhas, nem longe do celular.
Esse padrão de hiperconectividade gera impactos profundos na saúde. O sistema nervoso simpático, responsável pela ação e pela resposta ao estresse, permanece ativado por longos períodos, enquanto o sistema parassimpático, ligado à recuperação, digestão e regeneração, é pouco estimulado. O resultado é um organismo que nunca entra plenamente
em modo de reparação. Surgem dificuldades para relaxar, alterações do sono, fadiga persistente, tensão muscular crônica e redução da capacidade de concentração.
No nível cerebral, o consumo fragmentado de informações reduz a capacidade de foco profundo e de reflexão. O cérebro se adapta a estímulos rápidos e perde tolerância ao silêncio e à contemplação. Isso impacta diretamente a saúde emocional. A comparação constante, o excesso de informações e a sensação de urgência permanente aumentam
a ansiedade, a irritabilidade e o sentimento de insuficiência.
O medo de estar perdendo algo, conhecido como FOMO, torna-se um estado psicológico comum. FOMO é a sigla para Fear of Missing Out, que significa medo de estar perdendo algo. É a sensação constante de que algo importante, interessante ou melhor está acontecendo em outro lugar, com outras pessoas ou em outra tela, e que você não está participando disso. Na prática, é aquele impulso de checar o celular o tempo todo, mesmo sem necessidade real.
O estresse contínuo também altera o equilíbrio hormonal. A produção prolongada de cortisol compromete a imunidade, a memória, o metabolismo e a saúde cardiovascular. No corpo, a tensão constante se reflete na fáscia, um tecido altamente sensível ao estado do sistema nervoso. Quando o organismo não relaxa, a fáscia perde elasticidade e capacidade adaptativa, favorecendo dores crônicas, rigidez corporal e dificuldades de recuperação física, ou seja: dores e desconfortos estão a caminho.
Largar o celular não é apenas uma questão de força de vontade, mas de neurobiologia. A tecnologia explora mecanismos cerebrais ancestrais ligados à novidade e à recompensa. Quanto mais estímulo, menor a capacidade de relaxar. Por isso, recuperar o controle exige uma reeducação do sistema nervoso. Criar momentos de silêncio, reduzir o uso de telas antes de dormir, desativar notificações desnecessárias e estabelecer limites claros são passos fundamentais.
Práticas como respiração consciente, caminhadas sem estímulos, alongamentos, mobilidade corporal e exercícios de presença ajudam o organismo a reencontrar o estado de segurança e descanso. É preciso reeducar o corpo para se livrar do vício do celular!
O verdadeiro relaxamento não está na ausência de atividade, mas na ausência de excesso de estímulo. Descansar não é improdutividade, é uma necessidade biológica. Em uma sociedade que valoriza o fazer constante, reaprender a pausar é um ato de saúde e de consciência. Quando recuperamos a capacidade de estar presente no próprio corpo e no próprio silêncio, o cérebro reorganiza suas funções, as emoções se equilibram e o corpo volta a se regenerar.
Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja aprender a fazer mais, mas reaprender a desligar para viver com mais clareza, autonomia e saúde. Muita saúde a todos.
Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo, pioneira do método ELDOA no Brasil.