Ecoavam ainda pelos cantos da alma os últimos cânticos de Belém. A liturgia nos recordava que um Menino nos fora dado, o Emanuel Deus conosco. A estrela se deteve na estrebaria e os magos, que leram no firmamento um sinal diferente, seguiram em viagem e dos seus tesouros Lhe ofereceram incenso, ouro e mirra.
“Ave Maria, cheia de graça, / bendito Aquele que nasceu do Teu amor. (...) Nenhum pecado empobreceu os planos teus.” E como diz a música: “José não temeu agrura, / Maria foi sempre forte. /E Deus encontrou ternura/ e o povo uma nova sorte”.
“No incenso que se eleva, Deus é louvado; / na mirra, a certeza: Deus é humanado”, a canção proclama.
É nesse cenário de esperança que encontramos a figura da bisavó, uma mulher cuja pele é o pergaminho de tantas histórias de sofrimento e superação.
Ela, que se deixou garantir a vida inteira por Deus, como costuma dizer com firmeza, afirma com serenidade que Ele jamais a decepcionou. Em uma conversa com o Padre Márcio Felipe de Souza Alves — homem que se tornou, para muitos, uma testemunha viva do Céu aberto —, confidenciou o desejo que pulsava em seu peito cansado: queria ver o bisneto de três anos, o pequeno Dérik, batizado.
Viu o menino crescer pleno de encantos, desde o ventre da neta. Observava-o com olhos de quem enxerga além do visível. Os cabelos do garoto, encaracolados, lembram os de João Batista, o precursor que batizava nas águas do Jordão. João Batista que, misturado à multidão de pecadores, reconheceu o Senhor que vinha da Galileia e ouviu a voz estrondosa do Pai: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”.
Na precariedade de sua saúde, a bisavó desejava que o pequenino tivesse em sua alma a marca indelével desse mesmo Filho amado. Suas limitações físicas, tantas e tão pesadas, instalaram-se no coração misericordioso do Padre Márcio Felipe. O sacerdote, fiel ao chamado de não quebrar a cana rachada nem apagar o pavio que ainda fumega, fez-se ponte. O Batismo tornou-se realidade em um domingo onde a liturgia e a vida se abraçaram no Salmo 39(40): “Esperando, esperei no Senhor, / e inclinando-se, ouviu meu clamor. / Canto novo ele pôs em meus lábios, / um poema em louvor ao Senhor”. Cantou a alma do Sacerdote, da bisavó, dos pais do pequenino e dele, pois, enquanto a água se derramava em sua cabeça, brotou um sorriso meigo em seus lábios.
A frente da casa da bisavó se fez o altar do batizado, assim como em Belém a gruta de animais foi o abrigo do Menino.
Na véspera, o Padre Márcio Felipe me disse: “Deus permanece conosco e nos faz o convite: ‘vinde e vede’ (Jo 1, 39). Não deixemos de procurar o Senhor. Amanhã, ao celebrar o Batismo do Dérik, o Céu se abre e de lá poderemos ouvir a voz do Pai e poderemos contemplar tão grande mistério”.
Ali estavam pessoas de laços com a família. Algumas que foram derrubadas pelo mundo e se machucaram. Estavam filhos e filhas de dores que desconhecemos.
Aos que participaram, foi anunciado, pelo Sacerdote e pelo sorriso do Dérik, a certeza de que Deus os ama.
Padre Márcio Felipe me escreveu após essa experiência tão forte de Eternidade: “Que possamos continuar apontando para Jesus e testemunhando que Ele é o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”. Amém.
Maria Cristina Castilho de Andrade
Professora e cronista