OPINIÃO

Ciência em cena


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“Quem faz, como se faz e onde se faz ciência?”. Para responder a essas três perguntas, Peter Schulz, professor de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), escreveu o livro “Ciência em cena”, da Faccioli Editorial. O volume reúne textos de divulgação científica, muitos originalmente publicados no jornal eletrônico da universidade, e outros escritos especialmente para o livro. O autor sabe dosar rigor acadêmico e leveza do texto, tornando a leitura acessível e prazerosa. Os leitores não precisam ser especialistas em quaisquer dos assuntos abordados (e eles são muitos) para compreender e se interessar pelos temas. A essa clareza do texto, o escritor acrescenta notas citando fontes e indicando leituras para quem quiser se aprofundar.

O conhecimento do professor Schulz abrange áreas diversas: química, medicina, biologia, física, história... Ele desmistifica alguns tabus, como o da “isenção científica”. Escreve o professor: “A ciência abriga grupos de interesses e é palco de confrontos frequentemente sem isenção, que muitos acreditam ser um valor absoluto na comunidade científica”. Cientistas não são super-heróis. A ciência também reflete sua época. Cientistas mulheres, por exemplo, por largo tempo foram escanteadas ou tiveram importância diminuída em teorias e pesquisas. Para exemplificar, aprendemos que, por décadas, a francesa Marie Curie figurou como a única mulher agraciada com um Prêmio Nobel.


O livro está dividido em seis grandes capítulos. Os quatro primeiros falam de aventuras, pessoas, lugares e instrumentos da ciência; e os dois últimos esclarecem como ela funciona e a relação entre ciência e público. Há personagens reconhecidos pelo grande público, como Newton, Pasteur e Einstein; outros renomados, como Bohr e o agora midiático Oppenheimer. Mas há alguns a quem o professor torna conhecidos, casos da estadunidense Melba Phillips, professora de Física, e dos médicos brasileiros Pirajá da Silva e Jessé Acioly, ambos pioneiros nos estudos de doenças tropicais. E a respeito dos nossos trópicos, aparece a incrível história do casal de microbiologistas dos EUA Ottis e Calista Causey, que passaram mais de duas décadas no Brasil, onde cuidaram de um laboratório de pesquisas na Amazônia. A falta de infraestrutura fez com que eles isolassem ovírus de febre amarela sob a luz de velas! E tem ainda as histórias das medidas, das balanças, do termômetro, do microscópio... Ufa! Já disse que são muitos os temas.

A erudição do professor Schulz permite que ele navegue à vontade por tantos mares. Sua curiosidade alimenta seu conhecimento, e este se alarga.O livro tem riqueza extra: a preocupação em orientar o leitor, lembrando de tópicos já citados e indicando as remissivas deste ou daquele assunto (além das já mencionadas notas ao final do volume).

A história do paulistano Peter Schulz passa por Jundiaí, cidade em que viveu parte de sua infância e adolescência. Estudou nas escolas públicas Siqueira de Moraes, Romeiro Pereira (Geva) e Ana Paes, antes de partir para a Unicamp, onde ingressou como aluno e fez brilhante carreira como professor.

Fernando Bandini é professor de Literatura

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