OPINIÃO

O Mundo (as pessoas) estão cada vez mais egoístas


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Misericórdia é um substantivo feminino que significa compaixão, piedade ou clemência para com o sofrimento, a dor ou a culpa de outra pessoa. Se estendermos seu significado, ainda explicado pelo dicionário, o sentimento de compaixão pode ser expresso perante a dor ou dificuldade alheia; ou ter a disposição para perdoar, em vez de punir com rigor; ou ainda fazer um ato de bondade ou indulgência, especialmente quando alguém tem poder para castigar, mas escolhe não o fazer.

Assim como algumas palavras vão saindo de uso, vão com elas seu valor simbólico. Misericórdia é uma delas. O que estamos fazendo com a nossa inteligência, além de transferi-la para a máquina?

Dois exemplos emblemáticos ganharam grande repercussão na mídia, exacerbando a falta de empatia, amor ao próximo, valores éticos e morais básicos. Thayane Smith abandonou o “amigo”, no meio de uma trilha perigosa porque ele não conseguia acompanhar o seu ritmo de caminhada e o ator Henri Castelli, em convulsão, quase morre diante das câmeras porque os outros competidores hesitavam em prestar ajuda.

Vivemos em um mundo extremamente competitivo e focado em sermos cada vez mais imbatíveis e o centro das atenções. Não há espaço para o segundo lugar, afinal o brilho dos holofotes só pode ter uma direção – “Eu”. Parece que estamos abandonando nossa essência de que somos seres sociais. Os likes passaram a ter mais importância do que a dignidade humana. O discurso é de inclusão e diversidade, mas a prática do respeito, consideração e proteção, independentemente da origem, condição social, gênero, idade, crenças, capacidades ou comportamentos foi literalmente abandonada... deixada para trás.

 Quando e qual foi o movimento que deu início ao pensamento egoísta – o “Eu” em detrimento do nós (coletivo)?

Essa mudança não nasce em um único momento, nem pode ser atribuída a um só movimento. Ela é um processo histórico e cultural, gradual, com marcos claros. O que hoje chamamos de “egoísmo” — o Eu acima do Nós — emerge quando o indivíduo passa a se perceber como centro autônomo de decisão, valor e sentido, desvinculado do coletivo, da tradição e do transcendente.

O egoísmo não surgiu como perversão, mas como efeito colateral dos avanços reais na sociedade. O problema não é o “Eu”, mas o “Eu” sem vínculo, sem responsabilidade e sem consciência do todo.
O desafio atual é resgatar a consciência de que nenhuma conquista individual se sustenta num mundo onde o outro cai, adoece ou é abandonado pelo caminho. A verdadeira inteligência humana, ética e social é maior que a capacidade de competir, vencer ou inovar. É ter coragem de parar, olhar para o lado e estender a mão quando for necessário.

“Misericórdia” não é uma palavra antiga ou frágil. Ela é, talvez, a mais moderna de todas, porque exige algo raro na contemporaneidade: tempo, presença, empatia e responsabilidade. Misericórdia é reconhecer que o ritmo do outro pode ser diferente, que a queda do outro também nos diz respeito e que ninguém deveria ser descartado por não acompanhar a lógica implacável do desempenho.

Se queremos um mundo verdadeiramente inclusivo, o discurso precisa transformar-se em prática diária. Inclusão não é slogan, é escolha. É decisão consciente de não deixar ninguém para trás — nem nas trilhas da vida, nem nos palcos do espetáculo social, nem nas margens invisíveis da sociedade.

Rosângela Portela é jornalista, mentora em comunicação

(rosangela.portela@consultoriadiniz.com.br)

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