OPINIÃO

Um pouco de paz antes que o mundo acabe


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Era minha primeira vez na pedra do Arpoador para ver o famoso pôr do sol que, se fosse um quadro pintado a óleo em qualquer período artístico, seria digno de figurar nos melhores museus do mundo. A minha vantagem é que eu não perderia a aura dessa obra de arte e a veria ao vivo e a cores (azul pálido do céu, verde escuro da água do mar de Ipanema, verde das montanhas sinuosas do Rio e o alaranjado quente de fim de tarde).

Estava sentado ao lado de dezenas (se não centenas) de turistas que queriam o mesmo que eu: o melhor lugar para o espetáculo do Astro Rei. Sem cadeira cativa, eu fiquei no melhor lugar possível (o que minhas habilidades atléticas e minha coragem me permitiram chegar).

Na minha frente, vários braços erguidos com celulares tentando captar o que os olhos já estavam vendo. Registro para a posteridade ou prova imagética de que se esteve em algum lugar? Eu aposto em nenhuma e nem outra. Apostaria nos likes que aquela beleza de pôr do sol proporcionaria a qualquer um nas redes. Não julgo e nem julguei. Fiz o mesmo exatamente com o mesmo motivo.

Mas fiz por pouco tempo. Fiquei satisfeito com as imagens que eu tinha produzido e decidi que era hora de viajar. Coloquei meus fones de ouvido e iniciei a trilha sonora com a música mais óbvia para aquele momento e lugar: “Faz parte do meu show”, de Cazuza. O sol ia descendo, fazendo seu show e insistindo em iluminar as coisas apesar das nuvens que invadiam o palco celeste.

Eu estava longe. Viajando nos meus próprios pensamentos e sentimentos que me lembravam das coisas que vivi nesta última semana. Foi uma semana difícil que um dia, quem sabe, eu conte com mais detalhes. Não prometo. Mas o que você precisa saber é que eu estava em um castelo lindíssimo que eu havia construído. Enquanto eu dormia na torre mais alta - e sonhando -, os ventos do norte o derrubaram e me deixaram no meio do entulho com aquela sensação de impotência de quem sabe que fez o melhor que podia, mas que não serviu para nada.

Eu coloquei nas mãos do sol do Arpoador toda esperança de esquecer da destruição do meu castelo. Eu deixei a bagunça em casa com a certeza de que só olharia para ela mais tarde. Naquele momento, em cima daquela pedra em Ipanema, eu só queria um pouco de paz antes que o mundo acabasse. Até que um menino, que não deveria ter mais do que 10 anos, deu um tapa na minha mente entorpecida pelo cenário.

Junto de sua família e ao meu lado na arquibancada natural, o menino, impaciente com aquele programa nada divertido para uma criança - que provavelmente gostaria de estar nadando na praia -, fez uma pergunta para os adultos ao seu lado: “O que é que tem no fim do pôr do sol?”.

Fui sugado para a realidade com aquela pergunta que ouvi sem querer, mas que soou alto no meu espírito. “O que é que tem no fim do pôr do sol?”, repeti em voz alta e elogiei - também em voz alta - a pergunta. Acho que ele não me escutou, pois ele continuava reclamando da chatice daquele programa de adulto. E o adulto aqui, professor de filosofia, aproveitou a oportunidade dada por aquele garoto para pensar.

“O que acontece quando acordamos de um sonho?” Acho que se eu pudesse traduzir a pergunta dele, seria desse jeito. No fim do pôr do sol - momento mágico e quase etéreo - vem a realidade da escuridão da noite, que revela o que existe de fato acima de nossas cabeças. O sol, por mais lindo que seja, funciona como um ilusionista. O céu não é azul. Eu e você sabemos disso. O céu é estrelado e portanto, no fim do pôr do sol há o universo infinito para contemplarmos.

Quantas estrelas você consegue ver de onde você está agora? Lembre-se, quanto mais escuro, mais estrelas são possíveis de serem vistas. Se apagaram as luzes, não reclame e nem se assuste. Aprecie a vista. Quem sabe as respostas não estão lá, no impávido cosmos?

Conhecimento é conquista.

P.s.: cheguei em casa e estava tudo escuro, mas não acendi as luzes da sala. Conseguir ver as estrelas através da janela.

Felipe Schadt é jornalista, professor e cientista da comunicação

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